15 set

Nova Era – Paula Curi

Como fazia muito tempo que eu não vinha aqui escrever algo, escrevi um texto que apaguei.

Porque o resumo que quero dizer está dentro de mim, é um sentimento que ainda não sei explicar, muitas coisas aconteceram e tenho que esperar tudo ir aos poucos ao seu devido lugar.

Eu só posso dizer que aceitar, mudar, ter fé, amar, lutar, se tornou meus lemas.

Um novo dia, uma nova era começou e espero ser merecedora e digna do lado bom dela.

23 ago

Empatia – Paula Curi

Muito se fala em empatia, mas , infelizmente vemos pouco ela ser exercida.

Para mim a empatia é ter caridade, olhar o mundo com os olhos da alma, fazer aos outros exatamente o que gostaríamos de receber, ser uma pessoa justa.

A meu ver a pandemia abriu a caixa de pandora, muitas pessoas mostraram seu verdadeiro eu.

Logico que mudar sempre é possível, basta querer.

Mudamos quando olhamos o mundo ao nosso redor, vemos que existem pessoas vivendo um infortúnio muito mais difícil que o nosso.

Este mês temos o dia do orgulho e da visibilidade lésbica, logico que devemos comemorar esses dias , afim, de que as lutas sejam lembradas, porem do outro lado do mundo existem mulheres que estão lutando para sobreviver, estudar, serem mulheres.

Uma luta nunca pode apagar a outra, não devemos comparar nossos problemas, mas, podemos sim, ter empatia para com a dor do próximo.

Muitas vezes temos que ver que dentro do nosso infortúnio, ainda sim, conseguimos ser pessoas privilegiadas.

Precisamos ser conscientes de nunca sabemos o que se passa no interior de uma pessoa, e exatamente por isso, devemos ter empatia.

Empatia é sinônimo de caridade, e caridade é amor.

Esses dias um padre me disse que as pessoas tinham que entender que a vida é uma colheita de tudo que plantamos, no meu caso , sempre penso o que colho o que não plantei. Mas, resolvi me tirar do papel de vitima quando vi que já colhi flores.

Outro dia li uma frase que achei bonita : Temos que fazer nosso melhor para sermos uma ótima influencia para as pessoas ao nosso redor.

Fazer o nosso melhor depende exclusivamente de nos mesmas.

Que sejamos amor sempre!

 

04 ago

Antologia “Tomboy” Mais que um estilo

“A palavra vem do inglês “tomboy” (menina que gosta de atividades associadas a homens).” Para além de simples estilo de se vestir, ser Tomboy é essência imutável. Sabe-se que o preconceito adentra todos os espaços tratando-as, por muitas vezes, de maneira ofensiva e discriminatória. 

Pensando em todos os aspectos que permeiam a palavra e a vivência de uma garota Tomboy, a Editora PEL abre inscrições para sua antologia, tendo como organizadoras as escritoras Danielle Aragão e Nay Rosário. Serão 7 (sete) contos selecionados para sua composição. Sua publicação será em formato impresso e digital. 

Regulamento – Aberto a escritores profissionais e amadores pertencentes a comunidade LGBTQIA+. Os contos deverão ter, no mínimo, 2.000 (duas mil) palavras e, no máximo, 10.000 (dez mil) palavras. Podendo ser enviado até às 23h59 minutos do dia 15/09/2021. Os escritores selecionados não terão custos de inscrição e publicação. Os selecionados receberão 02 (dois) exemplares físicos enviados apenas para endereços sediados em território nacional, explicados detalhadamente em contrato quando o mesmo for enviado.

 

Objetivo – Fomentar discussões e novas percepções acerca da garota tomboy e seu protagonismo, além de criar oportunidades para que novos autores sejam publicados, assim contribuindo para o enriquecimento da literatura LGBTQIA+. 

Temática – Contos que apresentem protagonismo Tomboy.

Forma de participação – Os textos deverão ser enviados revisados, em PDF, na fonte Garamond 12, espaçamento simples. Os textos necessitam serem encaminhados para o email: contato@editorapel.com.br com cópia para: dnaragao@gmail.com e umpoemapordia@hotmail.com, contendo arquivo em anexo (não serão aceitos textos colados no corpo do e-mail), nome da autora/autor, pseudônimo (se houver), telefone para contato. No assunto colocar: SELETIVA ANTOLOGIA TOMBOY.

Datas e prazos – Serão aceitos envios de contos até o dia 15/09/2021. Os selecionados serão comunicados a partir do dia 15/10/2021 via e-mail, podendo ser adiado sem justificativa prévia. 

Da Responsabilidade – Os textos deverão ser originais e de autoria própria, não cabendo a Editora PEL a responsabilidade em casos de publicação não autorizada, plágio, calúnia ou difamação. Os autores reservam para si os direitos autorais com cessão para publicação do texto pela Editora PEL pelo prazo de 03 (três) anos.

24 maio

Águia – Paula Curi

Acredito que todas aqui já leram aquela historia da águia que quando se torna velha, voa para o alto de uma montanha e toma a decisão de arrancar o próprio bico, penas e garras para se renovar e viver por mais algumas décadas. Acredito que todas saibam que não verdadeira, mas a simbologia dela é real demais.

Não precisamos estar velhas para sentir o peso dos anos, basta estarmos infelizes e tristes.

E decidir mudar requer muita coragem e força de vontade.

Arrancar os medos, as inseguranças, a rotina sem objetivo é muito difícil.

Lógico que todas temos força mais do que suficiente para renascer para a felicidade.

Se é fácil porque nem todo mundo faz?

Isso é uma resposta que eu não tenho, conheço pessoas que tem um potencial gigantesco e relutam em mudar, aí as asas começam a pesar e aos poucos ela deixa de voar.

Se me perguntarem se dói mudar, eu direi que a dor maior vem da expectativa de como vai ser, mas quando processo da mudança começa é uma total libertação.

O erro mais comum é a pessoa achar que irá passar por esse processo sozinha, se ela soubesse que vai ter um abraço acolhendo e apoiando não teria esse receio de que estará sozinha.

E com as asas novas vai voar para lugares nunca sonhados.

A história da águia não é verdadeira, como eu disse, mas, acredite na sua força.

Só pra constar eu fiz como a águia, garanto que vale muito a pena renascer.

03 maio

Não somos – Paula Curi

Não somos mais as mesmas de um ano atrás , isso posso afirmar com toda certeza.

Dizem que a vivencia que nos traz maturidade, bem em um ano vivemos uma intensidade de emoções que equivale a 10 anos de vida.

Acredito que infelizmente algumas pessoas continuam imaturas, toda regra tem excessões, basta ver a postura nas redes sociais. E pode parecer até cisma minha , mas dá para sentir na energia que a pessoa emana a imaturidade, que a pessoa não aprendeu nada em um ano.

Aos poucos vamos voltando a ‘rotina’ de um mundo diferente, basta sairmos na rua para vermos que a pobreza aumentou, lugares fechados, pessoas desempregadas. O mundo mudou, na verdade o mundo vinha mudando a tempos e ninguém queria ver.

Fora a saudade da partida que se fez presente na vida de muitas pessoas.

O mundo mudou e é agora que temos que colocar em prática toda nossa força e coragem.

Não somos mais as mesmas de um ano atrás , não … você mudou, sua maturidade aumentou, você vê o mundo com outros olhos.

Sei que quando me reencontrar com algumas pessoas, vou conhecer uma nova versão dela.

Sabe onde podemos ver a mudança? Nos olhos, no olhar, mesmo sendo uma foto nas redes sociais notamos um olhar diferente, que diz muito.

Eu mudei e muito, adquiri maturidade em setores na minha vida que eu ainda me encontrava perdida. Mudei, mas meu coração continua azul apenas para uma pessoa. Eu tinha muito receio  dela não saber isso, hoje uma calma me invade porque tenho certeza que ela senti. E fico tão feliz em sentir que ela mudou, sinto pena  não perceber isso, porque terá que lidar com braveza gigante rs. Fico tão orgulhosa em sentir que ela viu que pode voar alto, deixou definitivamente pra atrás o medo. Finalmente , começou a acreditar em si mesma, acreditar que vale muito a pena o amor que sinto por ela.

Em um balança afirmo com todas as letras que ela pesa muito na minha vida, ironicamente quando ela está no alto me faz querer crescer mais. Acho um absurdo ela nunca sentir que me faz voar.

E é isso, sou feliz em ve la feliz.

Em um mundo novo, que possamos ser felizes por nós e por quem amamos.

22 dez

Nos vemos em 2021 – Paula Curi

Confesso que dessa vez não sei o que escrever para este fim de ano.

Tudo que eu pensei em escrever é tão obvio e soava como um texto de auto ajuda ou repleto de clichês relativos a este ano.

No começo do ano me falaram para eu nunca subestimar o futuro, e essa pessoa mesmo sendo muito teimosa tinha razão ..rs

E pensando nessa frase e na pessoa que me disse, vou fazer meu texto uma carta de Natal para ela.

Oi, tudo bem?

Eu quero desejar a você um Natal repleto de amor, sei que sua mãe cozinha muito então com toda certeza a ceia vai ser maravilhosa. (Ainda não esqueci que você me prometeu um pão da sua mãe )

Falando na sua mãe , espero que ela e seu pai estejam bem. Que você esteja bem!

Agora para 2021 vou ser repetitiva em dizer que quero sua felicidade, amor e se você quiser, mais eu em sua vida rs

Sim, não posso deixar de dizer que amei você me surpreender via zap … rs

Viu como é fácil me fazer feliz? rs

Aproveite esses dias para descansar e nao pensar muito, afinal, você pensa demais da conta. Apenas aproveite para ler, ver tv, ouvir música, e acredite que 2021 irá te surpreender positivamente.

Feliz Natal! E nos vemos em 2021 ! 

Prontinho minha carta já está aqui, e a de vocês?

PS: Quanto a minha cartinha para o Papai Noel, dessa vez vou deixar em segredo para dar sorte…rs Mas …. tem muito verde nela rs

Feliz Natal e Ano Novo !

28 out

Miragem – Marina Porteclis

Malabares  – Capítulo 1

O sol de meio-dia arrancava do asfalto imagens disformes, verdadeiras miragens. Mergulhando o olhar no chão quente e fumegante, em uma dentre tantas ruas enladeiradas, a observadora via a cidade emergir distorcida. Tal qual mágica, em instantes, prédios, carros, pontes, árvores, fontes, céu, cinza, tudo se contorcia por sobre o caminho. O sinal se mantinha vermelho, enquanto o olhar prosseguia perdido até que algo, semelhante às miragens, lhe chamou a atenção.

Uma jovem de beleza exuberante se postou defronte o carro. O corpo atlético, bronzeado, vestia roupas leves e simples. Uma calça solta e colorida, de cintura baixa, permitia entrever o abdome definido. A camiseta regata de cor clara deixava à mostra os ombros bem feitos, desenhados, as costas de musculatura firme, os braços torneados, mas de contornos bastante femininos. Cabelos castanhos claros, queimados pelo sol, desciam em ondas até quase a cintura, enquanto uma faixa na testa protegia a fronte altiva. Com os olhos encobertos por óculos de sol, a bela aparição arremessava malabares para o céu azul e os apanhava de forma acrobática, como se dançasse balé em plena rua.

Tomada de encantamento, Aída se demorou mais do que o devido a contemplar a malabarista. O sinal já estava verde, mas simplesmente não conseguia acelerar o carro. Atravessava aquela avenida todos os dias e nunca havia visto aquela criatura tão peculiar. Temeu nunca mais encontrá-la e, bem por isto, ignorou por alguns segundos as buzinadas que recebeu logo atrás de si.

Com um sorriso absurdamente bonito, a jovem se aproximou do carro, fazendo a condutora imediatamente baixar os vidros. Tinha a boca farta, mais do que atrativa, de uma sedução acintosa.

A vida era mesmo engraçada. Na cidade do Recife, Aída não costumava abrir as janelas do carro blindado por nada. A violência não era de brincadeira, mesmo com o sol a pino. Diante da moça, todavia, não pestanejou. Quis e deu acesso a ela sem pensar. Resistir lhe foi simplesmente impossível.

Os lábios bem feitos mantiveram o riso enquanto fitava a motorista. Os dentes brancos e perfeitos pareciam esculpidos. Frente a frente com a malabarista, Aída se sentiu estranhamente tocada. A moça não tinha apenas beleza e sensualidade. Havia um quê de arrebatador naquele semblante e certamente naquele espírito. Ela respirava e transpirava liberdade. Era isso.

A jovem parecia livre de todas as amarras e convenções. Livre para a vida e longe das molduras. Apesar de se postar no meio da rua, cercada de carros e asfalto escaldante, caminhava tranquila como se pisasse em nuvens. E, com a mesma tranquilidade, lhe sorria, como se fossem grandes conhecidas. O rosto anguloso se fez ainda mais bonito de perto e a face, sem máscaras, mostrou-se sincera, inteira, quase despida, não fossem os óculos escuros.

Aída, entre atônita e encantada, procurou na carteira uma cédula que pudesse oferecer, mas nada parecia valioso o suficiente para pagar aquele momento, aquele encontro suspenso no vento. As árvores dançavam à beira do rio e Aída teve vontade de sair do carro e puxar a moça para andarem de mãos dadas, esquecendo todos os seus compromissos. Desejou mais do que tudo sentar ao seu lado para que pudessem conversar, se conhecer. Queria descobrir o que estava por trás daquela miragem, ainda que tal desejo não fizesse o menor sentido.

Logo Aída, que tinha fama de ser extremamente racional e antiquada, se via agora, daquela forma, perdidamente enlevada pela desconhecida. Foi quando outro desejo a tomou: precisava ver os olhos da moça e esta, como se lesse seus pensamentos, subitamente ergueu os óculos, prendendo os cabelos com eles, como se fossem uma tiara.

Aquele olhar jamais seria esquecido por Aída e a expectadora soube imediatamente disto. Os olhos da jovem eram verdes e intensos, seguros e doces, profundos e inquisitivos. Um misto de impressões emergia daquela íris, onde dormitavam submersos traços minúsculos e negros, todos capazes de intrigar e enfeitiçar ainda mais a motorista.

Entre o espaço mesquinho do vidro, Aída estendeu uma cédula de vinte reais e, pela primeira vez, ouviu a voz da miragem que, mansamente e com sotaque sulista, lhe disse:

– Obrigada.

Sem se conter, Aída comentou, olhando fixamente nos olhos verdes que a fitavam:

– Linda a sua arte.

Não era preciso nada além de ouvir a frase para perceber que Aída não se referia apenas aos malabares, mas sim à malabarista. A artista, porém, não pôde escutar. Estava com fones nos ouvidos. Mozart tocava alto enquanto Aída tentava conquista-la. E assim, alheia ao que despertara, a jovem deu as costas e partiu, com os quadris bem feitos e o andar de quem pisa em terreno próprio.

Tudo isso se passou em segundos que pareceram se estender no tempo. Nesse mesmo interstício, Aída fez uma volta ao mundo, revirando sua própria vida.

Liberdade. Palavra forte e tão desejada. Era tudo o que Aída havia almejado durante muitos anos. Lembrou-se de quando morava com os pais e tudo o que queria era não ter horários para chegar em casa. Jurara para si mesma que, um dia, quando morasse sozinha e pagasse suas contas, jamais colocaria um relógio no pulso. A vida e suas ironias.

Agora era rica, uma grande empresária, morava num luxuoso apartamento na Avenida Beira Rio, mas, ao contrário do que havia prometido, não se livrara dos relógios. Ao contrário: colecionava relógios, sempre os mais caros. E por falar neles, estava absolutamente atrasada!

Arrancou com seu Audi preto rumo aos seus inúmeros e inadiáveis compromissos. O dia estava apenas começando e já se sentia cansada. Antes de virar a esquina, porém, olhou pelo retrovisor e despediu-se da mulher-miragem. Aquela sim, ao contrário de si, certamente era capaz de viver, de modo pleno, a tão clamada liberdade.

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02 out

O Mistério de Hécate – Mohine Yamir

Para mim, a pior parte do dia é a noite, onde o real e o místico se chocam e torna tudo plausível de acontecer. E sei o quão ridículo pode ser uma mulher de trinta e três anos ter medo da noite, mas existem pessoas que temem os sapos e eu não as julgo. Veja bem, se prestares atenção nos clássicos do terror, todas as coisas ruins se dão a noite. Justamente porque os criadores sabem que é na noite, onde as horas sombrias se alocam, que as criaturas se libertam e todos os infortúnios acontecem.

É na escuridão onde me sinto desprotegida e sem expectativas. Não consigo imaginar dias quentes, afagos ou sorrisos, apenas dor, tristeza e odor. Apenas… Sinto-me vulnerável e aceito sem contestar o destino que escreveram para mim.

— Christal? — O susto que tomei fez com que eu deixasse as ervas caírem. — Está tudo bem?

— Sim. Senti vontade de tomar um chá, preciso acalmar meus pensamentos. – Ela sorriu, sabia exatamente as questões que ainda bagunçavam a minha mente. Caminhou manhosamente em minha direção, envolveu-me em seus braços e me beijou com amor e calma. Até agora eu não sei o que z para merecer uma deusa como essa em minha vida.

Eu sempre tive problemas para dormir, insônia é como os médicos chamam; já a minha mãe dizia que eram as energias pedindo para que eu fizesse uso dos meus dons. Eu apenas sorria dela. Apesar de ser lha de uma escritora de contos de fadas e uma bruxa, de ter um irmão poucos anos mais velho, que é conhecido como explorador de mundos, por desbravar os mistérios da humanidade, e de todas as histórias que ouvi na infância, sempre me mantive cética quanto a magia e finais felizes. E, aos dezoito anos, depois de passar toda a adolescência lutando contra esses tais dons que a mamãe tanto falava, saí de casa. Estava fugindo do que aquele lugar significava para mim e minha família, acreditei que, mantendo distância, poderia ser uma pessoa “normal”. Mas, agora estou de volta aonde tudo começou.

A Cabritos da minha infância e adolescência mudou pouquíssimo, ainda merece ter o título de pedaço esquecido do paraíso. Apenas a principal avenida da cidade ganhou alguns prédios comercias com arquitetura moderna e, no meio deles, a Loja Eclipse se destaca, sua fachada em tom escuro, o letreiro em placa de neon com grafia simples, na vitrine, alguns objetos da crença pagã se destacavam. Certa vez tentaram persuadir a dona da loja a se “modernizar” ou vender o local, mas ao compreenderem que ela não era uma mulher qualquer, desistiram. Outra coisa que continua sem alterações é o antigo farol, dizem que ele é protegido pelo fantasma de um homem mau que por lá morreu.

Enfim, depois de quinze anos longe, eu voltei e caminhei pelos locais que um dia desejei banir das minhas lembranças. Foi tão reconfortante quando entrei em casa e senti o cheiro de flores e brisa marinha. Segurei a mão da minha deusa e fomos até a praia, sentamos na areia branca e limpa, a luz do sol parecia incendiar o céu, a cor do mar estava tão verde quanto a cor dos meus olhos. Ela sorria maravilhada com toda aquela beleza a nossa frente e eu suspirava. Então compreendi, não podia e nem queria mais fugir, estava finalmente em casa.

Às vezes, as coisas mais reais só acontecem na imaginação e mesmo em busca de explicações lúdicas para os últimos acontecimentos, eu confesso que ainda queria continuar acreditando que tudo havia sido apenas isso, imaginação.

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27 set

Estranhos na névoa – Morena Borges

As aparências enganam e, às vezes, esse engano pode ser fatal.

Era meados de junho, inverno no Rio Grande do Sul. Alice saíra de Porto Alegre pouco antes do anoitecer, com destino a Gramado, na Serra. Ia passar o m de semana na casa da família do namorado, Gabriel. O rapaz, preocupado, insistira que seria melhor ela ir na manhã seguinte. Pegar a estrada àquela hora, ainda mais com aquele tempo, não era certo. Ela concordou com ele de imediato, mas pensou melhor depois. Isso a faria perder boa parte da manhã de sábado na estrada. Mudou de ideia. Já havia feito aquele trajeto sozinha uma vez no m da tarde, não haveria problemas. Ao chegar do trabalho, botou roupas mais quentes do que as que usava, casaco de lã, uma manta enrolada no pescoço e luvas. Pegou a mochila, jogou no banco de trás do carro e saiu do bairro Auxiliadora, onde morava. Agora o relógio marcava 17 e 30 e a meteorologia avisava sobre aumento do frio e possível geada em partes da serra, mas ela dirigia tranquila pela BR 116. Seguiria por aquela rodovia até Nova Petrópolis, de lá pegaria a ERS 235. Muito fácil.

Ligou o som e sintonizou uma rádio local de música gaúcha. Havia umas antigas que a faziam se lembrar de quando era criança e viajava com seu pai. Ele costumava cantar com aquela voz grossa e serena as canções tradicionais. Entre uma música e outra um noticiário falava sobre casos de assalto e ataques a mulheres dirigindo sozinhas num determinado trecho entre Nova Petrópolis e Gramado, por onde ela ia passar. Alice vira aquilo em jornais durante a semana. Mas não dera atenção. Aqueles noticiários só mostravam desgraça e ficar vendo isso atraía coisas ruins. Se as pessoas fossem se basear por aquelas reportagens, nem sairiam de casa ou sequer viveriam. Por isso, ela mudava de canal na hora dos noticiários. Isso nas raras vezes em que via TV aberta, nem tinha tempo e quando sentava-se diante da televisão, era para assistir alguma série na Netflix ou vídeos no Youtube.

Todas as vítimas foram encontradas degoladas na mata e seus carros abandonados a poucos metros. Os crimes têm características parecidas e o caso está sendo chamado pela polícia de O maníaco da ERS 235, dizia o repórter.

Sem alarde algum, Alice relanceou um olhar para as nuvens cinzentas que preenchiam o céu e a névoa que se adensava, formando sombras entre as árvores à margem da estrada.

— Maníaco da ERS 235, fala sério — pegou uma bala e pôs na boca. Voltou a atenção para o caminho vazio à sua frente. Rodando a mais de 100 por hora no seu HB20, sentia-se protegida. Dali a pouco chegaria a seu destino.

Uma vaneira contagiante aliviou o clima da notícia. Ela tamborilou os dedos no volante, balançando a cabeça ao som da música.

Os minutos foram passando, curvas sendo vencidas em meio à paisagem úmida de inverno.

Sem que Alice se desse conta, como acontece no crepúsculo, a pouca luz do dia foi se desvanecendo e a neblina se avolumando a cada avanço do carro pela rodovia deserta. Aliás, fazia uma boa meia hora que ela não cruzava com nenhum outro veículo. Aquilo parecia estranho. A estrada vazia de repente trouxe uma sensação de solidão incômoda. Até certo ponto do percurso, mantivera-se despreocupada. Agora, uma ansiedade excessiva a afligia. Mas ela ainda não queria admitir que zera a coisa errada ao confiar que a viagem seria tranquila. Ligou os faróis. Um chuvisco no brilhava na luz, disperso no ar. Ela dobrou numa curva sinuosa e, a cada metro percorrido, conseguia enxergar menos a estrada, progressivamente submersa na neblina. Por isso, só quando se aproximou bem, ela vislumbrou a figura recortada na brancura do nevoeiro. Uma pessoa na beira da estrada. Aparentemente pedindo carona. Alice diminuiu a velocidade, sondando, antes de decidir parar. Seus faróis iluminaram uma moça. Esperando ao lado de uma moto, ela estendia a mão.

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25 set

Meu último adeus – Lethícia Lobato

Aviso: O conto a seguir é totalmente fruto da minha imaginação. Nenhum fato aqui relatado deve ser usado para justificar casos que acontecem na vida real. Muito menos é meu objetivo desmerecer qualquer outra crença religiosa, pois todas devem ser respeitas. Qualquer semelhança não passa de mera coincidência.

*****

Uma vez, falaram para ela que a morte era o fim de tudo, que depois de dizer adeus a vida, nada mais sobrava, e foi nisso que ela acreditou durante toda sua existência. Ela viveu cada dia como se fosse o último, amou a esposa incondicionalmente, vivia para aquela que amava, se apegou tanto que o seu último pensamento, segundos antes de morrer, foi exclusivamente sua amada Amanda.

Ela não sabia onde estava. Olhou ao redor e viu que também outras pessoas pareciam tão perdidas quanto ela. Para falar a verdade, ela não sabia nem o seu próprio nome ou quem era e muito menos o que estava fazendo ali.

“Amanda…” — Essa era a única coisa que estava em sua mente, a única lembrança que parecia ocupar um lugar em sua memória.

— Você demorou mais do que eu imaginava.

Ela se assustou com o sussurro atrás de si; rapidamente se virou e olhou para quem era o dono daquela voz.

— Amanda… — Foi a única coisa que ela conseguiu dizer.

A criatura a sua frente deu um sorriso de deboche e balançou a cabeça negativamente. Ele já tinha visto aquilo milhares de vezes, praticamente era tudo do mesmo jeito.

“As pessoas não mudam…” — Ele pensou.
— Camila, esse era o seu nome em vida. Amanda era sua esposa. — E onde ela está?
— A essa hora, deve está chorando pela sua morte.

A mulher arregalou os olhos sem conseguir disfarçar sua surpresa. Mesmo não lembrando quem era, ainda sabia o que significava vida e morte. Definitivamente, não poderia ter tido outra reação que não fosse a de surpresa, com uma grande dose de medo por saber que estava morta.

— Como eu posso estar morta? Isso não é possível.

— Você morreu horas atrás. Se envolveu em um acidente com sua moto. – A criatura dizia sem parecer se abalar.

— Eu estava indo para casa encontrar Amanda…
— Ela foi a sua última lembrança, da pessoa que mais amava.
— Preciso vê-la! — Camila disse se aproximando da criatura, mas ela se afastou.
— Você não pode. Está morta, não pertence mais a esse mundo.
Camila olhou para o lado e viu algo assustadoramente inacreditável. Deitado em uma mesa de necrotério, estava seu próprio corpo sem vida. Aquela era a maior prova de que o que ouvia daquele ser estranho era verdade. Ela estava morta, ela que gritava não ter medo da morte, mas no momento que iria receber o seu be o eterno, o negou até o último segundo.

— Preciso achar Amanda. — Nem mesmo a constatação de sua morte foi o sufi- ciente para que esquecesse sua amada Amanda.

Sem ouvir mais nada ou ninguém, Camila saiu “correndo” e atravessou a porta que dividia o necrotério de um corredor. Foi isso que a fez parar; se assustou com o fato de conseguir atravessa algo sólido. Então, fantasmas realmente atravessavam as coisas.

— Normalmente quem morre perde essas lembranças, mas você ainda sabe que um corpo sólido não atravessa matéria.

Camila olhou para a criatura que também havia atravessado e falava tranquilamente.

— Quem é você? — Perguntou.
— Eu sou o que aqueles em vida chamam de “anjo”.
— Anjos não deveriam ter asas? — Ela questionou, curiosa.
— Vejo que suas memórias ainda estão bem vivas.
Camila ficou analisando a criatura, que se afastou um pouco dela para observar o corredor em que nesse momento passava uma outra criatura que parecia coberta por uma nuvem negra — era algo que se assemelhava a um vulto.

— O que é aquilo?! — Ela deu um grito fazendo com que o vulto parasse de andar e virasse em sua direção.

O anjo que estava com ela se colocou a sua frente fazendo com que o vulto parasse e logo em seguida tomasse novamente a direção que estava caminhando.

Camila ficou aliviada, sentia que estava sendo transportada para um filme de terror. Desejava com todas as suas forças que aquilo fosse um pesadelo e pedia para acordar a cada segundo que passava.

Continua em … Antologia Criaturas da Noite

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