02 fev

Ele, o Tempo – Marina Porteclis

Nós, humanos, somos, sem dúvidas, seres curiosos, meticulosos, complicados. Cultivamos em nossa espécie, em nossa sociedade, sérias e solidificadas manias. Uma delas é o hábito de tentar definir o indefinível, conceituar o inconceituável, dar nomes e rótulos ao que existe apenas para ser “sentido” e não “chamado”.

E nessa tarefa árdua, na busca de realizar o impossível, em nome da tão clamada “racionalidade”, tentando comprovar nossa grandeza de espírito, por vezes e ironicamente, tudo o que conseguimos é nos descobrir irracionais e pequenos, diante da complexidade da vida e do tempo.

E por falar nele, o tempo, apenas a título de exemplo do já dito, observemos as atrocidades e injustiças daqueles que tentam definir o que vem a ser o “tempo”, utilizando-se justamente do espaço de vida que nos é dado para viver e não para conceituar o vivido.

Para alguns, a palavra “tempo” remete apenas ao passado, às saudades deixadas, às mágoas e tristezas vividas, às rugas e marcas cravadas na pele, às antigas cartas amareladas e às fotografias onde o sorriso era mais aceso e largo, os ombros mais fortes e capazes de carregar o mundo, os braços mais preparados para sustentar o peso da vida e as pernas mais encorajadas para enfrentarem a grande jornada que estava por vir, rumo aos percalços do desconhecido.

Para outros, “tempo” nada mais é do que o presente, o reflexo do “agora”, a concretização de tudo aquilo que é extremamente fugaz e passageiro, sinônimo de pressa para concretizar os planos, de pressão, em forma de relógio que aperta o pulso, em forma de ponteiros que caminham de segundo em segundo, lembrando-nos do nosso atraso, da rapidez com que a vida passa e nos deixa atônitos, perplexos, cansados.
Há ainda aqueles para os quais a palavra “tempo” remete ao futuro, a tudo aquilo que ainda está por vir e parece não chegar nunca, à espera constante, incômoda, inquietante e confusa por tudo aquilo que realmente nos importa, nos conforta, nos preocupa e que, infelizmente, parece estar lá na frente, fora do nosso alcance, separado de nós por longos e esperançosos anos, o que só vem a confirmar as palavras do poeta Vicente de Carvalho quando disse que, por vezes, “a felicidade está sempre onde nós a pomos, mas nós nunca a pomos onde estamos”.

Pois é, enquanto buscamos conceituar o tempo, dando-lhe forma e imagem, dando-lhe novas roupagens, ele, alheio ao nosso esforço, não espera e vai passando.
Deveríamos, portanto, parar de tentar conceituá-lo usando medíocres letras, parar de tentar vislumbrá-lo olhando a nós mesmos, incrédulos, de frente para o espelho, catando rugas e fios de cabelos brancos, afinal o “tempo” não está no dicionário, em forma de palavra, não está em nosso rosto, em forma de velhice, nem dentro de um armário amontoado, em forma de roupas desbotadas que saem de moda e perdem a cor com os anos.

O tempo é muito mais do que um conceito, muito mais do que uma imagem, muito mais do que poderia dizer este simples texto. Ele é sentimento, é percepção, é coração. Deveríamos, portanto, nos limitar a senti-lo, assim como as pedras à margem do rio sentem as águas que passam, assim como as árvores à beira do caminho sentem o vento que as agita.

As pedras do rio, à medida que as águas correm ao seu redor, inegavelmente perdem a brutalidade e são polidas, delineadas, esculpidas, assim como nós, ao passar do tempo. Nosso espírito aprimora-se, abandona o estado grotesco da juventude arredia e selvagem, perde a rigidez mesquinha do egoísmo, da vaidade exacerbada, da intolerância e passa a ter o brilho especial da maturidade, da sensibilidade, a suavidade das formas torneadas pela sabedoria, pela generosidade, pela capacidade de ceder às forças da água, sem perder a firmeza da rocha.

Do mesmo modo, as árvores, ao sabor do vento que passa, deixam as folhas secas caírem pela estrada, renovando-se com novas e belas folhas verdes e viçosas, estas sim, realmente capazes de gerar a sombra para os viajantes. Bem assim somos nós que, apenas com o tempo, nos tornamos capazes de nos livrar daquilo que é supérfluo, inútil, mesquinho, das coisas pequenas, que cuidam apenas de dar mais peso às nossas vidas, fazendo pender de cansaço nosso “galhos”, fazendo brotar, em nossos “caules”, mais espinhos. O tempo, sem dúvidas, é o filtro dos sentimentos que carregamos em nosso coração. É ele quem cuida para que apenas os sentimentos bons fiquem, à medida que deixa os sentimentos ruins ruírem, caírem pelo chão, abandonados feito as folhas secas que caem das árvores e cobrem o caminho. É também o tempo que fortifica e aprofunda nossas “raízes”, dando maior sustentação aos nossos passos e às nossas decisões É ele que atenua nossa solidão, gerando “brotos” das sementes que plantamos no decorrer de nosso percurso, “brotos” estes que nos farão companhia ao redor da “árvore” de nossa existência, em forma de filhos, amigos e companheiros, viajantes com os quais contaremos durante toda a estrada da vida.

Assim, tomemos o exemplo dos seres inanimados, despidos de qualquer “racionalidade”, e sintamos o tempo passar como a água que esculpi a pedra e o vento que renova as folhas, fortifica as raízes, semeia e faz brotar nossos filhos, nossos frutos; como a força capaz de deixar rugas mas, sobretudo, de levar mágoas, de curar feridas, de nos trazer paz; como a mágica que nos faz esquecer dos inimigos e estar, hoje, cercado pelos verdadeiros amigos que só o tempo traz.

Enfim, sintamos o tempo como o passado, o presente e o futuro reunidos num só instante, no nosso instante, o instante da vida, que é cheia de trocadilhos e perfeita em tudo, inclusive, quando deixa o tempo passar sem nos deixar tempo suficiente para conceituar o que dispensa conceituação.

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