07 jul

Uma Mulher Misteriosa – cap. final

No dia seguinte Alice ligou para a empresa avisando para Carmem que Marcela levaria a tia na casa delas à noite para jantar. Depois de contar, sorriu comentando maldosa.

– Parece que Marcela tem pressa! Coitada, está há muito tempo sozinha.

– Pois é.

– Correu tudo bem no passeio de vocês ontem, não foi?

– Sim. Fui uma moça muito respeitável como a senhora sugeriu.

– É por isto que ela vai trazer a tia. Olha Carmem, você tem que tratar Marcela muito bem, viu?

– Pode ter a certeza que vou tratar. Vemos-nos à noite.

À noite, Carmem tomou um banho caprichando no visual para agradar Marcela. Quando desceu a mãe estava cuidando dos últimos detalhes para o jantar. Carmem serviu um drinque sentando na sala. Alice apareceu olhando-a com um largo sorriso

– Está tudo pronto para recebermos Marcela e a tia dela.

– Ainda bem. Senta aqui comigo, por favor.

– Aconteceu alguma coisa, Carmem?

– Não aconteceu não, mãe. Só quero resolver um assunto com a senhora.

Alice sentou encarando Carmem curiosa.

– Do que se trata?

– Marcela me ligou hoje. Disse que estamos livres da dívida que temos com ela. Quer devolver o cheque e não deseja receber a dívida que temos com ela.

– Não! Está falando sério?

– Ela disse que era para falar com a senhora.

– O que isto quer dizer? Ela quer que você fique presa a ela para sempre?

Alice questionou confusa.

– Não. As coisas mudaram. Ela apenas não quer receber. Acho que está arrependida do que fez.

– Talvez seja o momento de ir até lá e enfrentar essa mulher de uma vez por todas. Vou resolver logo isto. Agora preciso correr na cozinha.

– Vai.

Quando a campainha tocou Laura estava descendo. Alice apareceu apavorada na sala.

– Será que está tudo bem? Não me esqueci de nada.

– Mãe? Relaxa! Está tudo bem.

Carmem sorriu junto com Laura.

– Vai correr tudo bem.

A criada apareceu neste momento com Marcela e a tia Telma. Alice abriu os braços indo cumprimentá-las. Carmem agiu com Telma como se não se conhecessem. Quando tocou a mão delicada dela, seus olhos caíram imediatamente no anel que ela usava. Era a cópia exata do anel de Maria Dantas. Lembrou-se das palavras exatas dela.

“Também tenho uma mulher, mas ela não vive no Brasil”. Soltou a mão de Telma, observando-a enquanto ela sentava no sofá ao lado de Marcela. Seus olhos se encontraram. Alice sugeriu querendo aproximá-las mais.

– Marcela? Por que não ajuda Carmem com os drinques?

Foram juntas para o bar. Carmem ficou de costas. Uma música suave tocava naquele momento. Marcela sorriu comentando ao lado dela.

– Você está linda de morrer hoje.

– Obrigada. Tudo para você.

– Nossa! Assim você me mata de felicidade.

– Quero matar de desejo também.

– Tão cruel. Isto não se faz.

Carmem passou a língua pelos lábios provocando-a.

– Você gosta.

– Adoro, Carmem.

– Será que você não se esqueceu de me contar sobre Maria Dantas?

Marcela abriu mais os olhos perguntando surpresa.

– O que tem ela?

– É a mulher da sua tia não é?

– Sim, mas…

– Também trabalha para você. Colocou-a na minha empresa para me vigiar. Achou que eu não seria capaz sozinha.

– Não a coloquei na sua empresa para te vigiar.

– Ah, não? Então porque a colocou lá?

– Para modernizar a sua empresa. Para que mais seria? Ela percebeu de imediato a sua competência.

– Sempre achei que havia alguma coisa estranha com ela.

– Não existe nada de estranho com a Maria. Ela é a supervisora de toda a linha de produção da minha companhia. Eu a mandei para lá porque queria que ela te ajudasse. Não culpe a ela, culpe a mim. Se você acha agora que o meu amor e cuidado contigo foi pouco, basta me falar que eu tentarei fazer melhor.

– Não estou me queixando. Estou esclarecendo o que você não me contou.

– É que existem coisas que são óbvias demais.

– Tem razão e eu não sou burra, por isto, trate de tirar aquela mulher de preto do meu encalço. Se não tirar vou dar uma cantada nela. Entendeu, Marcela?

– Ah, Carmem! Essa foi boa. Ela só cuida da sua proteção.

– Agradeço, mas não preciso de proteção.

– Carmem…

– Não estou brincando.

– Tudo bem. Você é que sabe. Estou feliz que tudo esteja claro e resolvido entre nós.

– Está sim. Vamos levar os drinques?

– Vamos.

A noite foi perfeita. Jantaram, conversam e riram em um clima muito feliz. Quando foram embora, Alice foi levá-las até o carro.

Laura encarou Carmem perguntando surpresa:

– Mãe comentou que contei para ela que sou lésbica?

– Ainda não. Que bom que o fez.

– Fiquei surpresa com a reação dela. Pensei que daria uns gritos.

– Eu te falei, mamãe mudou. Tornou-se mais compreensiva. Também, depois de tantos problemas.

– Tem razão.

– Rezamos para que Ricardo não seja gay também.

As duas caíram na gargalhada.

– Essa foi ótima! Recebi sinal verde para trazer Anne para jantar aqui.

– Ótima notícia! Estou feliz por você, Laura!

– Obrigada! E você e Marcela? Estão se entendendo bem?

– Sim. Estamos nos entendendo muito bem.

– Não sei como deixou mamãe arrumar uma namorada para você. Eu jamais aceitaria isto. Não estou te reconhecendo.

– Não deixei mamãe arrumar namorada nenhuma para mim. Essa mulher que acabou de sair é a mesma que todos pensam que é um monstro deformado. Uma vampira, lembra? Mamãe ainda não sabe, mas vai saber. Sou completamente louca por ela. Eu escolho a minha mulher. Entendeu?

– Está dizendo que…

– Estou dizendo que essa Marcela é Marcela Alvarez! Minha vampira se preferir assim!

– Mal posso acreditar! Estou boba com essa!

– Acredite. Ela é o amor da minha vida. Agora vou dormir, boa noite!

– Boa noite, Carmem!

Alice não estranhou quando Marcela apareceu para jantar novamente no dia seguinte. Desta vez Carmem a convidou para conhecer seu quarto quando terminaram de jantar.

Notas da autora: O velho golpe de conhecer o quarto.

Confusa Marcela fitou Alice perguntando incerta:

– Não se importa que eu vá conhecer o quarto de Carmem?

– É claro que não. Vá minha querida! Fique à vontade aqui em casa.

Alice respondeu cheia de sorrisos.

– Vocês são jovens e devem aproveitar a vida.

Subiram juntas na mesma hora. Quando chegaram ao quarto, Carmem abraçou Marcela beijando-a apaixonada.

– Não via a hora de sentir a sua boca.

– Eu também. Nem acredito que estou no seu quarto.

– Marcela, nem sei o que falar, você foi tão inteligente conquistando a minha mãe.

– Fui não fui? Pois é, mas não imaginei que nos tornaríamos amigas.

– Foi melhor assim. Eu te amo tanto.

– Ter o seu amor era o meu sonho. Amo você, Carmem Santiago. Você é a mulher da minha vida.

Notas da autora: You’re the woman of my life. Tu es la femme de ma vie. Em qualquer idioma, isto é lindo de ouvir.

Carmem sorriu caindo com Marcela na cama. Segurou o rosto dela confessando:

– No início senti tanta raiva de você. Mal acreditava que estava me sujeitando às suas vontades.

– Eu fui terrível, eu sei. Perdoa-me.

– É claro que te perdoo, amor. Você não sabe, mas depois, quanto mais fazíamos amor, não houve um dia em que eu não ansiasse em voltar correndo para os seus braços.

– Ah, Carmem! Poderia ter me confessado isso antes.

– Não, não consegui confessar. Mas te amei muito em todos os momentos em que estivemos juntas. Agora estamos aqui, na minha cama, e é inacreditável. Parece um sonho.

– É mesmo, por isso vamos tratar de aproveitar.

Marcela respondeu beijando-a apaixonadamente colando seus corpos.

No dia seguinte Alice Santiago seguiu pelo mesmo corredor que Carmem atravessou até chegar à sala de Marcela.

A secretária abriu a porta anunciando:

– A Senhora Santiago está aqui!

Marcela abriu as cortinas até a sala ficar completamente iluminada. Voltou-se vendo Alice abrindo a boca completamente chocada à sua frente.

– Você?

Alice perguntou incrédula.

– Bom dia! Sente-se, por favor!

– Como pode ser isto? Você é…

– Sim, eu sou Marcela Alvarez!

Confirmou apontando a cadeira, sentando diante dela.

– Entendo a razão que a fez me temer tanto. Todas as coisas absurdas que falavam sobre mim por aí e a situação difícil entre Carmem e eu, pude imaginar seus receios. Nós não previmos que poderíamos nos apaixonarmos perdidamente, contudo, foi o que aconteceu. Eu amo Carmem e vou procurar fazê-la a mulher mais feliz deste mundo.

– Oh… Não poderia imaginar uma coisa destas, não que você a amasse.

– Sim, eu amo. Carmem também levou um choque quando fui jantar na sua casa. Não contei a ela que a conheci no hospital. Muito menos sobre os seus desabafos. Nunca contarei sobre as coisas que a senhora me disse em particular.

– Como você pôde me ouvir sem revelar quem era?

– A senhora estava tão frágil, como eu poderia tê-lo feito?

– Pensando por este lado.

Alice sorriu começando a relaxar.

– Não pense que me senti bem não revelando quem eu era. A situação apenas fugiu ao meu controle.

– Sim, estou entendendo. Neste momento acho que foi melhor que tenha acontecido assim. De outra forma talvez eu nem quisesse te ouvir caso tentasse falar comigo sobre o seu amor pela minha filha.

– Eu também acredito que de outra forma a senhora não me daria ouvidos e se desse, provavelmente não acreditaria em mim.

– É bem possível.

– Está bem, mas a senhora veio resolver a questão do dinheiro?

– Vim sim. Também iria te mandar ficar longe da minha filha. E agora não quero mais que você se afaste dela. Eu distingui a verdadeira Marcela e estou feliz por poder não julgá-la como vinha julgando.

– Obrigada. O dinheiro não me interessa. Só quero viver em paz com Carmem.

– Entendo muito bem.

– Quero continuar sendo a sua confidente se ainda confiar em mim. A verdade é que eu vivia pensando numa forma de convencê-la de que eu não era a mulher horrível que comentam. Sabia que não gostava de mim. Quando nos tornamos amigas, acreditei que a faria me ver com outros olhos. Nunca tratei Carmem como uma prostituta, juro que não. Eu a amei dia após dia. Quero agradecer por ter me aceitado em sua casa.

Alice sorriu comentando animada.

– Pois muito bem, então vamos esquecer o dinheiro. Temos que decidir onde vocês duas vão viver. Queria muito que fosse lá em casa. Carmem me dá muita força. O que você acha?

– Não pretendo afastar Carmem da sua vida. Quero que entenda que precisamos de privacidade. Carmem e eu vamos conversar com calma sobre essa questão. Eu já pensei muito. Só preciso saber a opinião de Carmem.

– Claro! Só achei que estando tão apaixonadas…

– Estamos. Foi doloroso quando Carmem voltou para casa. Eu quero estar onde ela estiver.

– Tudo bem Marcela. Só resta me desculpar pelas coisas terríveis que andei falando sobre você. Eu sinto muito.

– Não se preocupe. Não levei nada daquilo em consideração. Coloquei-me no seu lugar enquanto a ouvia. Se eu fosse mãe, sentiria a mesma revolta que a senhora sentiu.

– Obrigada por entender. Só desejo então te pedir uma coisa.

– Peça.

– Faça Carmem feliz.

– Eu farei. É o que eu mais desejo. Agradeço muito por compreender o meu lado.

– Eu compreendo sim. As portas da minha casa estarão sempre abertas para você. Agora eu vou indo. Até logo!

– Até logo!

Carmem ouviu com atenção Marcela contando do encontro com sua mãe. Estava deitada na cama dela completamente relaxada.

– Ela ficou mais relaxada depois que contei que eu te amo.

– Você foi muito esperta. Meus parabéns! O que importa é que ela ficou descansada. É uma preocupação a menos para D. Alice.

– Não podemos esquecer que a filha dela conquistou uma milionária.

– Ela sabe que só preciso do seu amor.

– Eu também só preciso do seu amor, Carmem.

– Agora você faz parte da família.

Carmem lembrou sorrindo enquanto beijava os lábios de Marcela.

– Que delícia te beijar, Marcela. Adoro meu amor.

– Eu também…

– Vamos morar juntas ou vamos ficar como estamos?

– Eu pensei, que se você quiser, posso morar com você na casa da sua mãe até o seu irmão voltar à realidade. Também porque eu sei que ela sofre muito com o estado terminal do seu pai. Depois você vem morar comigo o que acha?

– Acho ótimo assim. Minha mãe vai ficar mais sua fã do que já é.

– Se eu posso agradar as duas, por que não? Só não abro mão de ficar com você.

– Então me faça feliz agora. Faça amor comigo, Marcela Alvarez.

Carmem pediu baixo enlaçando o pescoço dela.

– Faço sim. O que eu mais quero é te amar agora, depois, todo o tempo que pudermos.

– Marcela, meu amor… Eu te desejo demais.

Notas da autora: Obrigada a todas as leitoras que acompanharam as postagens dos capítulos.

Até mais! Abraços!

Astridy Gurgel.

                                               Fim.

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