22 dez

Vontade ferrenha | cap. 3 – Astridy Gurgel

Diante do supermercado Layse acabou conseguindo levar duas compras. Quando retornou da segunda viagem, o doutor Salomão a viu parando para falar com ela.

– Oi, Layse! O que faz por aqui?

– Olá, doutor! Estou carregando compras para ganhar uns trocados.

– Ah, é? Seus pais sabem que está fazendo isto?

– Sabem sim. Eles deixaram.

O médico sorriu perguntando:

– Eles estão passando bem?

– Estão bem sim senhor.

– Fico feliz em saber. Já ganhou muitos trocados com as compras que levou?

– Ganhei não senhor, só umas moedinhas.

– É de “grão em grão a galinha enche o papo.”

– Enche sim.

– Até mais ver!

– Até mais ver!

O médico já ia seguindo, mas pensou melhor reaproximando dela.

– Layse?

– Oi.

– Olha, vou te dar uma ideia. Para ganhar mais do que moedinhas você tem que dar o seu preço. Por exemplo: Se você for levar compras nas casas próximas aqui do supermercado, cobre um real. Se for mais longe, fale que o preço é de dois reais.

– E é? Será que as pessoas vão aceitar este valor?

– Quando você executa um serviço você pode estipular o preço. Se a pessoa falar que não tem nota para te dar, você aceita as moedinhas. Só para não ficar sem ganhar nada.

– Muito boa ideia. Não tinha pensado nisso ainda. Obrigada!

– Não precisa agradecer. Na próxima vez deixo você me ajudar a levar as minhas compras.

– Vou gostar é muito. Deus te ajude! Para onde que a Valentina vai viajar?

– Para São Paulo. Ela vai estudar lá.

– Uai, mas se aqui também tem escola.

– Tem sim, mas a Valentina quer estudar medicina e aqui não tem faculdade.

– Hum, então tá. Obrigada! Tchau!

– Tchau!

Salomão deu um sorriso, um sorriso mesclado com tristeza por ver aquela menina que tinha feito chegar ao mundo naquela situação difícil. Quando chegou a casa, comentou com Valentina como se sentia em relação à realidade de Layse.

Layse conseguiu levar mais duas compras cobrando o valor que o médico sugeriu. Voltou para casa com duas notas de dois reias e as moedinhas. Os pais ficaram animados quando ela colocou o que arrecadou sobre a mesa.

Depois de contar o dinheiro, a mãe sorriu para ela comentando:

– Conseguiu sete reais e trinta centavos. Parabéns, minha filha! A sua ideia foi muito boa.

– Eu não falei? Todos os dias eu vou trazer um pouco e de pouco em pouco, o quê?

– “A galinha enche o papo.”

Completou o pai sorrindo feliz com ela e com a mãe.

Layse ganhou beijos e abraços dos pais. Nesta noite foi dormir muito feliz.

         Na semana que se seguiu, Layse optou por ficar pouco tempo na feira. Achou mais rendoso levar as compras do supermercado. Foi, no entanto, na semana seguinte que o doutor voltou ao supermercado e quando saiu com as compras, Layse levou pela primeira vez suas sacolas. O médico dividiu o peso com ela. Quando chegaram a casa, Salomão entrou seguindo para a cozinha. Pediu a Layse para deixar as compras no chão mesmo. Salomão entregou os dois reais que Layse pegou guardando no bolso.

– Vou pegar uma maça para você comer.

– Pedi não.

– Sei que não pediu. Sou eu que quero te dar.

– Sim senhor.

Salomão lavou a maça entregando para ela. Layse a pegou e seus olhos brilharam de contentamento.

– Deus que aumente!

– Amém!

– Doutor Salomão?

– Oi, Layse.

– Quando que a Valentina vai voltar a morar aqui?

– Só quando ela terminar os estudos.

– São Paulo é muito longe?

– Não muito, mas também não é perto.

– Ahhhh, então tá! Até logo!

– Até logo, Layse e obrigado!

         Mais uma semana se passou e Layse teve uma surpresa na escola. A cantineira a chamou na segunda-feira, depois que ela terminou de merendar, explicando:

– Sobra sempre pão dormido na minha casa e vou passar a dá-los para você. Sempre que tiver eu trago, está bem, assim?

– A senhora está me dando? A senhora viu que eu não pedi, não viu?

– Eu sei que não pediu. Aceite de bom grado.

– Aceito sim. Deus que aumente!

– Amém! A partir de agora pode comer o seu pão da merenda todo. Não precisa guardar a outra metade.

– Sim senhora. Deus que ajude!

Layse pegou a sacola dando um sorriso gigante, mostrando assim todos os dentes, correndo desembestada de volta para a sala de aula. Se estivesse na rua, de certo teria dado gritos de alegria.

Quando entrou em casa explicou para a mãe preocupada com o que ela iria pensar:

– Mãe? Sabe a cantineira da escola?

– Qual delas?

– D. Nivalda.

– Uhum, sei! O que tem ela?

– Ela contou que sempre sobra pão dormido na casa dela e vai me dar sempre que tiver.

Conceição colocou a mão na cintura olhando a sacola de pão na mão de Layse pensativa.

– Ocê pediu este pão, não é, Layse? Que coisa feia!

– Pedi não, mãe! Juro por Deus!

– Então porque ela te deu? Fala a verdade!

– Estou falando a verdade. Acho que ela viu que eu só como a metade do meu pão.

– Quando encontrar com ela vou querer saber desta história direitinho. Se ocê estiver me pregando uma peça vai ficar de castigo.

– Pode perguntar. To mentindo não.

– Eu vou sim. Agora vá se trocar para almoçar. Temos frango para o almoço. O doutor Salomão mandou a cesta básica e umas misturas para nós.

– Obaaaaaaaaaaa…

Layse comemorou pulando e depois correu para o seu pequeno quarto.

Dados da autora: Se tem uma coisa que consigo ver, é o sorriso da Layse quando está de barriga cheia. E recordo de outras crianças que passavam fome e pude ajudar.

Layse almoçou indo trabalhar na feira. Um feirante lhe deu uma manga, que ela aceitou e comeu imensamente satisfeita. Quando seguia para o supermercado D. Clarice a chamou.

– Menina, Layse? Anda cá ligeira.

Layse aproximou-se a olhando com um sorriso bonitinho.

– A senhora tá boa?

– Estou, obrigada! Você me disse que se eu precisasse de ajuda lá em casa estava disposta. Ainda está?

– To sim senhora! To disposta até demais.

– Você sabe plantar?

– Ah, poxa, sei não senhora!

– Isto não é bom, porque se não sabe plantar não vai saber colher.

– Sei colher não senhora, mas eu quero aprender. Quero é muito!

– Quer mesmo? Olha lá.

– Olho sim, eu juro que quero!

– Tá, tá! Passa lá em casa depois das quatro da tarde. Vou ver se você leva jeito para a coisa.

– Passo sim senhora.

– Que idade você tem?

– Tenho dez anos.

– Dez anos, hum, boa idade para aprender a mexer na terra e saber o seu valor.

– A senhora acha?

– Acho sim. Comecei bem nova ajudando os meus pais. Naquela época nós morávamos na roça. Eu era adolescente quando meu pai vendeu o sítio para comprar uma casa no interior de São Paulo. Depois que casei, vim morar aqui em Rocas de cielo.

– Estou entendendo.

– Eu vou ter uma conversa com a sua mãe, pode ficar descansada. Agora vá e apareça lá em casa na hora que marquei com muita vontade de aprender.

– Vou cheia de vontade sim senhora! Obrigada! Até logo!

         Layse levou algumas compras sempre perguntando as horas para as pessoas. Às quatro da tarde foi correndo para a casa de D. Clarice. Durante o tempo que esteve por lá, a senhora começou a ensiná-la a plantar, observando como ela o fazia.

Depois Clarice ofereceu um copo de café com leite com alguns biscoitos.

Layse olhou para ela avisando:

– Pedi não senhora.

– Ora deixe disto e coma logo! Estou vendo pelos seus olhos que está morta de fome.

– Estou sim senhora. Deus que aumente!

– Amém!

Layse comeu e foi dispensada por D. Clarice.

Desde então, Layse passou a ir trabalhar todos os dias na casa de D. Clarice. A menina aprendia rápido e com o seu auxílio, a senhora foi se dando conta que a sua presença ali era realmente indispensável. Para a solitária Clarice a presença de Layse passou a ser uma grande felicidade, praticamente um bálsamo. A energia da menina era impressionante. Clarice não precisava mais fazer esforço físico. Layse fazia tudo sobre sua orientação.

         Layse ia à missa regularmente todos os domingos com a mãe. D. Clarice também ia e sempre comentava com Conceição sobre sua satisfação de ter Layse trabalhando em sua casa. Conceição, claro, ficava feliz e orgulhosa por ouvir elogios sobre a filha constantemente.

         Layse completou onze anos. No dia dos seus anos Clarice fez um bolo mostrando-o para ela quando chegou para trabalhar. Era um sábado e a menina bateu palmas de alegria ao ver o bolo.

– A senhora fez para mim?

– Fiz sim. Feliz aniversário! Que essa data se repita muitos e muitos anos na sua vida.

– Deus te ajude!

– Amém! Agora vamos partir o bolo…

– Partir? Podemos não senhora, os meus pais nem estão aqui para comer…

– Não estão mesmo, aqui estamos só eu e você. Quando for para a sua casa pode levar o bolo. Ele é seu.

– Pedi não.

– Deixa de bestagem!

– Sim senhora, se eu posso levar para casa vai ser maravilhoso comer agora.

Enquanto elas comiam o bolo, D. Clarice voltou-se para Layse perguntando:

– Você já teve a sua primeira menstruação?

– Sei o que é isto não. É quando sangra?

– É sim, já teve?

– Tive não. Minha mãe falou que quando a minha regra vier eu vou sangrar todo mês.

– Regra. Sei. Tem gente que chama de regra. Também está certo. Aposto que não vai demorar.

– Por que a senhora acha que não vai demorar?

– Você já está com 11 anos e os seus seios já estão crescendo.

– Já notei. Tomará que eu não fique muito peituda.

– Hahahahaha, você é muito divertida. Preocupa-se com isto não, minha filha, hoje em dia a medicina dá jeito em tudo. Aumentam e diminuem o tamanho dos seios das mulheres.

– É?

– É sim. Agora chega, vamos trabalhar!

– Borá lá que hoje à tarde vou jogar bola.

– Não é aos domingos depois da missa que você joga bola?

– É sim, mas agora que estou marcando muitos gols me chamaram para jogar no sábado também.

– Está certo, você tem que praticar esportes e arejar a cabeça mesmo.

O tempo passou. Dois longos anos simplesmente voaram. Layse estava agora para completar treze anos e Valentina continuava estudando em São Paulo. Trabalhando com D. Clarice, Layse ainda carregava compras e também começou a ajudar em uma casa de ração para animais. No entanto, era na convivência com Clarice que ia aprendendo cada vez mais sobre a vida. Uma semana antes de completar os anos, no domingo quando as três saíam da missa, Clarice falou com Layse na frente de Conceição.

– Depois que terminar de jogar bola, vá almoçar lá para casa. Vamos ver filmes depois.

Layse olhou de Clarice para a mãe apertada, respondendo sem jeito.

– Pedi almoço não senhora.

Clarice olhou para Conceição dando um sorriso.

– Você educou muito bem a sua filha.

– Graças a Deus ela aprendeu e é muito obediente.

– Ela é sim, meus parabéns, mas a menina não pode só trabalhar. Ver filmes é muito educativo. Você deveria ter um aparelho de televisão, televisão é muito bom para dar boas risadas e distrair a cabeça.

– Como ocê sabe Clarice, não tivemos condição de comprar uma ainda.

– Tem nada não, vou dar uma para vocês. Será o meu presente de aniversário para Layse.

Layse deu um salto abraçando Clarice. Aquela demonstração de afeto tão incomum na menina sempre contida, fez a idosa sorrir, abraçando-a carinhosamente também.

– A senhora é mais do que boa. Deus te ajude!

– Amém! Deixa disto, minha filha. É só um presente e você merece por poupar meu velho e cansado corpo do trabalho extenuante depois que foi trabalhar comigo.

Layse era mesmo o pé de boi da idosa e nada mais do que justo, do que a mulher reconhecer o valor da menina na sua vida. Clarice não tinha tido filhos e muito menos teve irmãos. Os pais e o marido tinham falecido há muitos anos. Era sozinha no mundo até Layse entrar na sua vida. Por isto, dar um pouco de alegria para a menina fazia-lhe muito bem.

– Depois do futebol irei correndo para a casa da senhora.

– Não, não! Vá até a sua casa, tome um banho e se apronte como se fosse para o cinema. Você já é uma mocinha e precisa começar a ter vaidade. Anda aí com essas calças velhas, blusas desbeiçadas e toda descabelada. Uma mocinha deve se esmerar na aparência. Precisa de umas roupas novas. Pode deixar que eu mesma vou tratar disto.

Conceição sorriu afagando os cabelos da filha.

– D. Clarice tem razão. Ocê anda sempre desleixada, deve começar a cuidar melhor da sua aparência.

 – Então tá bem mãe. Vou me esmerar é muito nisto.

Esmerar, sim, aquela foi a promessa que Layse considerou seriamente naquele momento.

Continua…

Notas da autora: Feliz Natal para vocês! Muita paz, saúde, amor e grandes alegrias neste dia festivo.

“Em tudo, o nosso sentimento é o que importa. A intenção, boa ou má, influência diretamente nossa vida no futuro. Qualquer ação, por mais simples que seja, se feita com coração, produz benefícios na vida das pessoas.”

Buda.

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