16 dez

Vontade ferrenha | cap. 2 – Astridy Gurgel

Para alívio dos pais, na segunda-feira Layse começou a frequentar a escola. Ambos sentiram-se aliviados por saber que a filha iria se alimentar um pouco melhor. Naquele mesmo dia, Salomão apareceu no final da tarde com uma cesta básica e alguns complementos, como bacon, linguiça, fiambre, carne, etc.

Valentina estava com ele. Assim que viu a quantidade de comida, Layse gritou batendo palmas de felicidade:

– Oba! Que montão de comida!

– Olha os modos, Layse!

A mãe a repreendeu indo até à cozinha com o médico levando as sacolas.

Valentina sorriu para Layse falando:

– Não falei que o meu pai é rico?

– Falou. Deus te ajude!

Layse respondeu abraçando Valentina com o coração saltando no peito de alegria. Layse era muito mais baixa e sua cabeça batia na cintura de Valentina.

– Vou ser sua amiga para sempre, Valentina!

Salomão voltou à sala sorrindo ao vê-las abraçadas.

– Vamos andando, Valentina?

– Vamos sim.

– Tchau, Layse! Tchau, Ceição!

– Vão com Deus! Muito obrigada! Deus que ajude!

Como os anos passam rápidos e as crianças crescem tão depressa como mudam as estações, a esperta Layse completou dez anos. Nesta idade passou a compreender melhor a situação de escassez dentro do seu lar. Essa realidade tornou-se uma preocupação constante na sua cabeça. Seu desejo era exclusivamente de ajudar os pais para que tivessem o que comer. O fato de a menina focar seu intento em encontrar uma forma de ajudar, enchia os pais de orgulho, mas ao mesmo tempo, os inquietava. A admirável mente infantil vivia arquitetando formas de alcançar seu objetivo.

Layse estudava na parte da manhã. Na escola, quando merendava sentia-se culpada por saber que os pais estavam em casa sem ter uma merenda como a que recebia na cantina. Ainda assim, sempre comia metade do pão e separava a outra metade para levar para casa. Agia assim a conselho da mãe que lhe ensinará “que o pouco com Deus é muito.” Sendo assim, se ela soubesse “medir o fubá, nunca lhe faltaria o angu.” Layse era ótima para aprender e gravar tudo que os pais lhe instruíam. Não só aprendia como punha em prática tais ensinamentos.

Os vizinhos eram tal qual sua família, todos viviam na mesma situação de pobreza. Não tinha como, se faltasse café ou açúcar pedir emprestado, ninguém tinha para emprestar. No entanto, a apenas duas ruas da sua casa, quando retornava da escola, a menina esperta sempre observava uma senhora idosa com uma enxada cultivando verduras e legumes no seu quintal. Desde que passou a ir para a escola Layse passou a reparar como cresciam vistosas as plantações no quintal de Clarice Fontes. A senhora plantava pouco e Layse imaginava que era porque não tinha tanta energia devido à sua idade. O quintal era imenso e existia mais terreno nos fundos da casa que ocupava praticamente o quarteirão inteiro. A casa da idosa era um casarão vistoso. A senhora vendia o que cultivava em uma barraca na praça principal da cidade. Atenta àquela situação Layse estava certa de que a mulher trabalhava sozinha na sua plantação. Com aquilo na cabeça, acabou comentando com a mãe sobre o assunto.

Conceição admirou-se da filha ter dado fé daquele fato.

– Eu sei minha filha, D. Clarice sempre viveu dos seus cultivos. Nós até já compramos na mão dela quando dava.

– Eu posso conseguir algumas mudas com ela e plantar no nosso quintal.

– Não vá me pedir nada para Clarice. Não se tira o pão da boca dos outros.

– Não vou pedir, só ia comentar com ela para ver se me dava umas mudinhas. Eu posso pelo menos ir lá perguntar se ela precisa de ajuda?

– Minha filha, ocê só tem dez anos. Não acho isto bom. Vai incomodar a senhora nada, tem que parar com essa ideia de querer oferecer ajuda para as pessoas.

– Como é que vou conseguir comida se não trabalhar?

– Você não vai trabalhar! Tira isto da cabeça! Agenor?

– Oi, Ceição?

– Chega aqui, homem. Vem falar aqui com a Layse.

Agenor entrou na cozinha na cadeira de rodas olhando de uma para a outra.

– O que está acontecendo?

– É a nossa filha que não larga desta ideia de querer trabalhar. Ocê tem que explicar para ela que ninguém dá emprego para uma criança.

– Dá sim! Pai? Lá na feira as crianças carregam as compras das pessoas para ganharem uns trocados. Porque que eu não posso? Vivo pedindo para fazer isto e ocês não deixam. Ah, poxa!

Agenor puxou a filha sentando-a no colo tomado de paciência.

– Minha filha, sua mãe e eu ficamos tristes demais por mal termos o que comer. A vida não é fácil e eu quando sonhava em ser pai nunca pensei que não teria o suficiente para colocar comida na mesa procês. Eu e a sua mãe ficamos mais chateados vendo ocê aflita assim para ganhar dinheiro para nos ajudar. Só que existem coisas que uma criança não pode fazer.

– Se a criançada toda carrega feira no mercado, pai! Ah, que coisa, eu dou conta de carregar também. Juro que dou. Pai, mãe? A deixa vai, por favor!

– Ceição? E agora?

Agenor voltou-se para a esposa esperando por uma resposta.

– Isso aí que ela falou é verdade mesmo. A criançada carrega feira e ganha uns trocados. É melhor do que roubar não é, Agenor? Eu é que não quero que ela acabe fazendo mal feito.

– Sem dúvida, Ceição! Ocê ouviu a sua mãe? Não queremos ocê fazendo mal feito por aí.

– Ouvi foi muito bem, pai. Eu nunca fiz mal feito nem vou fazer.

– Ocê não pede nada para ninguém?

– Peço não pai. O senhor falou que não pode pedir porque quem dá quer outra coisa de volta.

– É isso mesmo. Então vamos fazer o seguinte, quando sair da escola ocê vem em casa trocar de roupa e depois pode ir lá ao mercado para ver se consegue carregar alguma feira.

– Vou conseguir carregar é muita feira pai. Ocê vai ver só.

– Está bem. Agora vai buscar água na cisterna que está na hora de esquentar para o nosso banho.

– Obrigada pai. Vou buscar água agorinha.

Layse buscava água todos os dias na cisterna situada nos fundos do quintal da casa. Era ela também que catava madeira para o fogão de lenha. Lavava toda a louça, arrumava a casa, fazia todos os mandados que os pais pediam e os deveres de casa, estes sempre fazia à noite, porque era quando não tinha mais trabalho algum para executar. Fazia essas tarefas de adulto sempre de boa vontade. Quando acordava, antes de ir para a escola tratava das galinhas, que eram quatro. Colhia os ovos, separando seis para consumirem e os outros para serem vendidos. Algumas pessoas iam até a casa deles comprar os ovos. Layse ficava triste quando a mãe vendia todos eles, até os que separavam para o consumo próprio. Entretanto, sabia que aquele dinheiro da venda dos ovos era importante.

                  No dia seguinte Layse acordou mais animada do que nunca. Depois da aula poderia ir para a feira. Mal se continha de alegria.

Naquela manhã na escola, depois que a cantineira serviu todos os alunos, Layse observou com seus olhinhos sempre atentos que a mulher voltou com alguns pães para a cozinha. Até deveria ter voltado com pães em outros dias, mas foi só naquele momento que a menina teve uma ideia. Pegou seu pão partindo ao meio, comeu a metade e a outra metade guardou no saquinho que vinha com o pão. Depois que terminou de merendar, o que fez matutando a ideia na cabeça, a pequena mente sempre em ação foi até à cozinha.

Parou na porta chamando a cantineira.

– Senhora cantineira? Posso fazer uma pergunta?

Dona Nivalda se voltou abrindo um sorriso para Layse.

– Então não pode? É claro que pode! Você já sabe o meu nome, é Nivalda. O que quer perguntar, Layse?

– Queria saber se sobra pão todos os dias aqui na escola.

– Sobra sim. Tem sempre alunos que faltam de aula.

– É? E o que acontece com o pão que sobra?

– Eu faço pudim de pão e sempre há quem coma.

– Faz com todos eles? Não fica nenhum sem virar pudim de pão?

A mulher ficou encasquetada com tantas perguntas olhando para ela mais atenta.

– Você está querendo me pedir pão? Se for, sinto muito, mas não posso dar nada da escola para ninguém. O que tem aqui não é meu.

– Não estou pedindo não senhora. Posso não. Só fiquei pensando que se o pão dormido for para o lixo pode ser que não precise ir para o lixo.

– Você come pão na sua casa?

– Como não senhora. Só como a metade do pão que levo da merenda.

– Por que os seus pais não compram pão?

– Meus pais não tem dinheiro.

A cantineira viu neste instante o meio pão dentro do saquinho, bem seguro na mãozinha dela. Fato que sempre foi muito comentando na cantina pelas funcionárias e até pelas professoras: Que a família de Layse era tão pobre que a menina regrava até a merenda que comia na escola para levar metade para casa.

– Estou entendendo.

– Era só isto, D. Nivalda. Obrigada pela resposta.

– De nada, Layse.

A menina saiu correndo, mas a cantineira ficou parada a olhando desaparecer esbaforida pelo corredor a fora.

Depois da aula Layse entrou em casa feliz da vida. Entregou para a mãe o saquinho com o meio pão. Aquele era o seu lanche da noite. Em seguida correu para o quarto onde trocou de roupa. Quando voltou a mãe avisou.

– Tem que almoçar antes de sair.

Layse sentou na cadeira da cozinha esperando que lhe fosse servido o prato. A mãe colocou diante dela o prato que continha um ovo frito com feijão e farinha. Faminta como sempre vivia, Layse comeu tudo de bom grado. Quando terminou sorriu para a mãe agradecendo:

– Deus que aumente!

– Amém, filha!

Foi ligeira lavar a louça, depois beijou os pais saindo em disparada. Passou diante da casa do doutor e não resistiu, parou tocando a campainha.

A criada apareceu sorrindo para ela. Layse sempre passava por lá para falar com Valentina.

– Oi menina, Layse!

– Olá! Valentina tá em casa?

– Está sim. Ela acabou de almoçar. Pode entrar!

– Obrigada!

Layse entrou correndo pela casa adentro. Valentina estava deitada no sofá assistindo televisão:

– Oi, Valentina!

– Oi, Layse! Já almoçou?

– Almocei sim. Vim te contar uma novidade.

– Que novidade?

– Meus pais me deixaram carregar as compras das pessoas na feira.

– Ufa! É essa a novidade? E você está feliz por causa disto?

– Uai, eu to sô! Vou ganhar dinheiro para ajudar os meus pais.

– Que coisa Layse, o seu mundo é tão pequeno!

Valentina respondeu bocejando.

– Ocê tá desfazendo deu?

– Não Layse, mas essa conversa está muito chata.

– Então tá, uai!

– Layse? Eu vou estudar fora.

– Vai? Oh! Por causa de quê?

– Porque o meu pai decidiu e eu quero ir. Tenho dezesseis anos e vou estudar numa ótima escola e conhecer pessoas diferentes.

– Poxa, então nem vou mais vê ocê?

– Ai, esse ocê me mata! É ver você, entendeu?

– Nooooooooo, Valentina! Ocê tá é muito chata!

– Não estou chata coisa nenhuma. Quando eu voltar de férias talvez a gente se veja.

– Vou sempre passar aqui para saber notícias docê.

– Tudo bem. Tchau!

– Eu posso te dar um abraço?

– Pode.

Layse jogou-se nos braços dela abraçando-a com força. Um abraço de fato caloroso já prevendo a saudade que sentiria dela.

– Agora chega, vai. Até mais ver.

– Até Valentina. Gosto muito docê.

– Também gosto de você, Layse. Se precisar de alguma coisa peça para o meu pai.

– Posso não. Tchau, Valentina!

Layse acenou passando pela porta. Quando chegou à rua as lágrimas desciam pelo seu rosto sem parar. Antes de chegar à feira, Layse enxugou as lágrimas do rosto sentando num caixote ao lado de uma barraca. O instinto dela estava certo, naquele primeiro dia na praça conseguiu carregar algumas sacolas. Recebeu somente parcas moedinhas, mas sua alegria ainda era contagiante com aquele pouco que guardou no bolso.

Por volta das quatro da tarde pensou que talvez conseguisse mais se ficasse diante do supermercado e para lá se encaminhou. Passou pela barraca de D. Clarice, a idosa que sempre via plantando parando para falar com ela.

– Olá, D. Clarice! Tudo bem com a senhora?

A mulher a olhou de cima a baixo percebendo que era a filha de Agenor e Conceição, dando um meio sorriso.

– Olá, Layse, tudo bem! Quer comprar alguma coisa?

– Quero não. Posso não. Só estou falando olá. A senhora mora há duas ruas da minha casa.

– Então eu não sei minha filha?

– A bom. Se a senhora precisar de ajuda na sua casa é só me chamar. Estou carregando feira para as pessoas para ganhar uns trocados.

– Eu sei. Como a criançada toda por aqui faz.

– É sim. Já vou indo.

– Vai com Deus!

– Amém!

Layse seguiu então para o supermercado cheia de esperanças de ganhar mais uns trocados.

Continua…

“A pressa passa e o que você faz com pressa fica.”

Tati Bernardi.

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