08 dez

Vontade ferrenha | cap. 1 – Astridy Gurgel

Sinopse: Diferente de muitas crianças que almejam constantemente ganhar brinquedos, Layse Cardoso anseia unicamente por ter uma mesa farta. A desventura que assola o seu lar é muito mais do que ela poderia compreender. Então, a menina cresce com uma vontade ferrenha de melhorar a sua vida e a da sua família. Por mais que a sua existência lhe pareça injusta, Layse tem a certeza de que os maiores tesouros que possui são: o afeto dos pais e o amor secreto que alimenta por Valentina Lemos. Assim sendo, Layse passa a viver motivada pelo desejo de se tornar alguém na vida e conquistar o coração de Valentina.

Astridy Gurgel.

Capítulo 1

A cidade de Rocas de Cielo deve o seu nome, ao avô do médico Salomão Lemos, Estuardo Lemos, um filho de espanhóis que veio ainda criança residir no Brasil, com seus pais. Uma cidade repleta de rochas que por assim ser, acabou por receber o nome de Muitas Rochas. Foi lá que a família decidiu fixar residência. A cidade mal era conhecida, pois seu nome não constava no mapa das cidades de Minas Gerais.

Com o passar do tempo, um dos filhos do casal faleceu e Estuardo Lemos optou por partir para trabalhar em cidades onde existiam minas de carvão. Nas horas de descanso, Estuardo costumava tomar umas cachaças com os colegas de trabalho. Nestes momentos ficava falante e cheio de saudades de Muitas Rochas. Os mineiros gostavam de ouvir o espanhol articulando com tamanho orgulho sobre a cidade da qual nunca sequer ouviram falar.

Estuardo dizia a plenos pulmões:

– Uma cidade com o nome de Muitas Rochas é muito pouco expressiva. Rouba completamente o valor que ela tem. É verdade que são muitas rocas, e elas existem a perder de vista por lá. Um homem se não for cego tomasse de amor por aquele lugar. Se um dia eu puder, eu darei a ela um nome a sua altura, porque sou um trabalhador das minas que sonha em ser muito mais do que um mineiro. Também porque as rocas da cidade parecem muralhas que separam o céu da terra. Entre as rocas e o céu, só existe o firmamento. E é de lá que Deus zela pelos que vivem entre aquelas rocas. Abençoado eu sendo, a cidade será conhecida como, Rocas de Cielo.

Estuardo já possuía na sua fala o tom discursivo que denunciava suas tendências para a política. Assim sendo, após trabalhar dez anos de mina em mina, o rapaz já um homem feito, escreveu para os pais contando da sua decisão de partir para São Paulo, onde faria o curso de direito, já que não desejava ser um trabalhador das minas pelo resto de sua vida.

Estuardo Lemos trabalhou duro em todo tipo de serviços que encontrou para custear a faculdade. Quando se formou em direito, retornou para a cidade de Muitas Rochas. Chegou doutor, cheio de ideias e munido de ricos discursos. Assim sendo, tratou logo de candidatar-se a Prefeito da cidade. Como a inteligência seduz e ilude o povo, foi eleito prefeito derrotando os dois outros candidatos. O primeiro ato do novo prefeito foi alterar o nome da cidade. Com um texto escrito pelas próprias mãos, Estuardo leu o seu discurso explicando o motivo da mudança do nome. Um discurso com um tema voltado para a sua pessoa, praticamente engrandecendo a si próprio, afinal quem tinha sido ele até aquele grande momento? Um filho de espanhóis que se tornou carvoeiro. Mais tarde cursou a faculdade e ali estava ele eleito Prefeito de Muitas Rochas.

– Hoje é um momento histórico para esta cidade escondida dentro deste grande Estado. Uma cidade localizada exatamente na divisa entre Minas Gerais e São Paulo. Nenhum dos moradores pode afirmar se é paulistano ou mineiro com plena certeza. Vivi por 15 anos longe daqui. Viajei de cidade em cidade e nunca, em canto algum por onde passei, alguém ouviu falar de Muitas Rochas. Sim, meus senhores e minhas senhoras, Muitas Rochas, vejam vocês, não existe além destas grandes rocas. Uma cidade de terra fecunda, porque aqui tudo que se planta cresce em abundância. O solo desta cidade recebeu o toque das mãos de Deus. Uma cidade abençoada como esta não pode continuar ostentando um nome tão sem importância.

Eu, quando vivia trabalhando nas minas de carvão por este Estado a fora acalentava um sonho. Um sonho acanhado, afinal, como poderia sonhar um simples mineiro das minas? Não meus senhores e minhas senhoras, obervem bem, estão errados todos os que pensam que um mineiro não pode sonhar. Aqui diante de vós está o mineiro sonhador, o mineiro que tanto lutou para retornar para essa cidade maravilhosa e ser o vosso Prefeito. Eu nasci na Espanha, mas é aqui, sobre o solo desta terra que hei de viver e morrer, pois amo este canto protegido por Deus. Hoje eu os convido a conhecer e saudar o novo nome desta promissora cidade. Para a apreciação de todos, saúdem esta escolha e se orgulhem dela, porque seremos todos a partir de agora, moradores de Rocas de Cielo.

Esta história passou a ser a mais contada pelos moradores da cidade. Estuardo realizou um bom mandato de quatro anos, transformando o sobrenome da família Lemos em um dos mais importantes da região.

         Todos se orgulhavam de viverem em Rocas de Cielo sem se incomodar pela cidade não ser conhecida. Aliás, o fato da cidade não ser conhecida passou a ser motivo de orgulho. Os habitantes achavam que quanto menos conhecida a cidade fosse, menos visitantes receberia. Quem iria para uma cidade que não se sabia que existia? Cidades que não recebem visitantes não geram receitas e essa mentalidade foi preservada durante muito tempo adiando a chegada do progresso. Como há sempre gente querendo começar a vida em outras terras, com o passar dos anos começaram a chegar novos moradores e a cidade foi se desenvolvendo mais rapidamente. Os habitantes não eram hostis com quem chegava e cada novo habitante percebia logo que na cidade calma, a polícia praticamente não saía da delegacia para fazer vigilâncias. Brigas de bar quando ocorriam, eram resolvidas a socos do lado de fora como nos tempos do faroeste. Era comum ver homens brigando para resolver uma questão qualquer. Já ninguém dava a mínima e com o passar dos anos, até essas brigas foram abrandando. Os habitantes eram pacatos e a vida sossegada e até monótona. Acontecia uma ou outra violência e eram tão raras, que quando sucediam toda a cidade comentava. Os moradores tinham a veia da fofoca inflamada. Algo que era muito combatido pelas pessoas de bom coração e de bem. O padre fazia sermões voltados para o assunto nas missas, alertando que a fofoca era um ato pecaminoso que Deus não aprovava. Por toda a igreja havia dizeres espalhados pelas paredes para lembrar a todos as razões para não falarem mal do próximo.

Os versículos eram fixados em lugares centrais, em quadros emoldurados com escritos em letras garrafais:

“A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come seu fruto.”

Provérbio: 18:21.

“O que guarda a sua boca e a sua língua guarda a sua alma das angústias.”

Provérbio: 21:23.

Ler os provérbios e ouvir o padre era uma coisa, colocar seus ensinamentos em prática era o que raramente acontecia. Que o dissessem as cobras faladeiras e caluniadoras da cidade. Essas nunca mostravam suas caras, mas suas línguas passeavam de orelha em orelha.

         Da nova geração da família do falecido Estuardo, seu neto, Salomão Lemos foi o único que não se interessou pela política, preferindo se tornar doutor. Casado e pai de uma filha, chamada Valentina Lemos, o bom médico possuía um enorme coração.

Na cidade existia um casal formado por Agenor Cordeiro e Conceição Cordeiro que sonhavam em gerar um filho. Não importava para eles que fosse menino ou menina. Paupérrimos como só eles, se viravam com os pequenos biscates que Agenor conseguia, enquanto Conceição trabalhava de doméstica. Agenor casou-se já com a idade avançada com Conceição, que trabalhava na ocasião na casa do doutor Salomão. Na altura do casamento, Agenor tinha 45 anos e Conceição 44. A esposa que casara virgem engravidou de primeira. Como se diz em Minas Gerais: “Bateu, valeu!” Quatro meses depois perdeu o bebê. Pela idade já avançada, foi advertida pelo doutor Salomão que seria difícil que o útero segurasse um feto até o final da gravidez. Todavia, Conceição queria muito ser mãe para realizar seu sonho e o do esposo. Para tanto, e por tamanha teimosia, passou por outras três gravidezes de risco, sofrendo novos abortos. Aqueles abortos entristeciam demasiadamente o casal, ainda assim, Conceição não perdia a esperança de acabar realizando seu desejo de se tornar mãe. Até mesmo porque não tinha entrado ainda na menopausa.

O doutor Salomão continuou acompanhando Conceição e novamente ela ficou grávida pela quarta vez. Os temores de vir a ter mais um abordo eram visíveis na mulher. Salomão, que tinha muita consideração por ela, por ter ajudado a criar a filha Valentina, além de ter sido irreparável nos cuidados com a sua esposa nos últimos meses de vida dela, dedicou-se para que a mesma obtivesse sucesso daquela vez. A gravidez sofrida e conturbada deu origem a uma menina que chegou ao mundo miudinha; pesando apenas 2,4 kg, o que preocupou os pais, mas Salomão garantiu-lhes que não era motivo para desespero. À medida que fosse crescendo a menina ganharia peso como acontecia com os bebês. Para tanto, o médico acompanhou de perto o seu desenvolvimento. A menina, batizada com o nome de Layse Cardoso, cresceu rápido e antes de completar um ano começou a arriscar os primeiros passos. Salomão foi convidado para ser padrinho e isto fez com que se sentisse ainda mais responsável pela criança. Layse crescia cheia de vida e era alegria da casa.

Os cinco primeiros anos de vida de Layse foram difíceis para os pais que precisaram apertar cada vez mais o orçamento. A situação financeira da família tornou-se mais do que precária. Pagando o aluguel, as contas mensais e os medicamentos que ambos faziam uso, o pouco que sobrava para a alimentação mal dava para a subsistência. Para piorar a situação, como se já não fossem terrivelmente sacrificados com tamanhas dificuldades, Agenor sofreu um derrame, ficando com parte do corpo paralisado, o que o obrigou a se tornar dependente de uma cadeira de rodas. Conceição precisou parar com as faxinas para cuidar do marido. Também ela já não tinha mais uma boa saúde. Os três abortos que sofrerá e a gravidez extenuante que insistiu em levar adiante abalaram consideravelmente a sua condição. Com isto, Salomão decidiu arcar com o aluguel da casa do casal. Em uma cidade pequena como aquela, movida pelos fofoqueiros de plantão, a notícia passou a correr a boca miúda e os moradores comentavam que Salomão era o pai de Layse, já que não viam outra explicação para que o médico pagasse o aluguel da casa da família.

Quando Layse completou seis anos de idade, Valentina completou 12 anos. Salomão iria para o sítio com a filha e decidiu pedir aos pais de Layse para levá-la, assim a filha teria com quem se entreter, ao mesmo tempo em que ele proporcionaria alguns momentos de lazer para a afilhada.

Layse vibrou de contentamento quando a mãe permitiu que ela fosse com o doutor.

Salomão comentou com Conceição pegando a pequena mão de Layse.

– Vai ser bom, porque na segunda-feira ela já vai começar a ir para escola. Assim vai poder brincar bastante lá no sítio neste final de semana.

– É verdade, D. Salomão! Vai com Deus, minha filha! Comporte-se e não peça nada para ninguém.

– Peço não, mãe! Fica com Deus aí também.

Já na viagem, sentada no banco de trás do carro com Valentina, Layse segurou a mão dela, dando um jubiloso sorriso de felicidade. Valentina ficou segurando aquela mãozinha pequena, percebendo assim, a alegria infinita que Layse demonstrava por estar indo passear no sítio com eles. Achava Layse uma menina fofa. Ela sempre sorria quando se encontravam o que era raro, pois o doutor trabalhava a maior parte do tempo atendendo muitos pacientes.

Chegando ao sítio, Salomão disse para Valentina ir se distrair com Layse. As duas andaram pelos arredores brincando de se esconder. Embora com 12 anos e aquela brincadeira fosse sem graça para Valentina, porque já era uma mocinha, ela brincou de tudo que Layse pediu durante umas três horas sem reclamar. Cansadas de tanto correr, foram sentar na varanda, onde a empregada serviu um lanche para as duas.

Enquanto estavam comendo, Layse perguntou para Valentina ingenuamente:

– Quando a gente for grande vamos ser namoradas?

– Que pergunta Layse! Eu e você não podemos ser namoradas.

– Não?

– Acorda! Claro que não!

– Uai, por causa de quê que não podemos?

– Por que você é pobre e eu sou rica. Gente rica não namora com gente pobre.

– Pensei que era porque somos duas meninas. Que eu nem vejo menina namorando menina mesmo.

– Isto não tem nada a ver, porque menina pode namorar menina sim.

– Todo mundo beija igual. Pode ser rico ou pobre. Se todo mundo tem boca, oras!

– Eu sei lá se beija igual.

– Beija sim. Até solta pum igual.

– Não falei nada de pum, Layse! Olha essa boca suja.

– Meu pai diz que todo mundo é igual. Todo mundo faz fezes igual.

– Que coisa feia de falar. Isso é nojento!

– A gente não pode fingir que não faz.

– Nem por isto temos que falar, mas, que rico é diferente, é sim.

– É nada!

– Claro que é, Layse! Para de teimar comigo!

– Meu pai diz que “quando as pessoas morrem elas vão todas para o mesmo lugar.”

– Quem não sabe que gente morta vai para debaixo da terra?

– Vai sim e num “leva nada porque caixão não tem gaveta.” Todo mundo fica pobre depois que morre. Por isto que quem fala que é rico é tudo besta!

– É besta nada, pobre é que tem inveja de rico.

– To nem aí. Nem sei o que é ser rica mesmo. Deve ser morar numa casa igual a um palácio e ter muita comida na mesa.

– Claro que é! Viajar para o mundo todo e ter tudo o que o dinheiro pode comprar também. Sem contar que rico come feito rei.

– Coisa mais besta, rei é tudo gordo porque vive comendo sem parar.

– Onde você viu um rei para falar esta bobagem?

– Uai, num livro de princesas que o seu pai me deu. Todo rei é preguiçoso.

– É nada! O rei fica só se deliciando com a vida boa e dando ordens para os seus súditos.

– Se o seu pai é tão rico por que trabalha tanto? Pessoa rica nem tem de trabalhar.

– A é? Por acaso as coisas caem do céu?

– Se caísse eu bem que tava feita. Pegava logo um tanto de riqueza para eu e meus pais. Posso te contar um segredo?

– Pode.

– Ocê não conta pra ninguém?

– Eu não. Você não falou que é segredo?

– É sim Valentina.

– Conta logo.

– Tem vez que meu pai deixa de comer para eu não ficar com fome.

– É este o segredo? Achei que era uma coisa bem cabeluda.

– Eu hein, nem conheço coisa cabeluda.

Layse respondeu balançando os ombrinhos num gesto de pouco caso.

– É maneira de falar. Pode deixar que eu vou pedir para o meu pai para dar comida para vocês.

– Uiii, ocê não pode pedir não! Meus pais vão falar que eu pedi e eu não posso pedir nadinha de nada.

– Você nem pediu mesmo, mas espera aí, se você estiver com fome nem assim pode pedir? Mesmo se for comida?

– Posso não, Valentina. Se eu pedir minha mãe pega a palmatória.

– Nem se usa mais palmatória. A sua mãe é doida por acaso?

– É não. É que pedir é feio. Posso não. Também eu nunca que vi a palmatória.

– Então a sua mãe deve falar isto só para te assustar.

– Se for, me assusta é muito.

– Aposto que é. Tudo que eu quero eu peço para o meu pai e ele me dá.

– Se o seu pai é rico, oras.

– É mesmo.

– Valentina? Se ocê come feito um rei ocê vai virar princesa?

– Ia ser bom se eu virasse, mas não vou não.

– Ah, bom! Se ocê virasse princesa nem ia conversar e nem brincar mais comigo.

– Não fica triste não que eu nem sou ser princesa.

Valentina percebeu que os olhos de Layse estavam ficando cada vez mais pesados.

– Você está ficando com soninho?

– Eu to.

– Deita a cabeça nas minhas pernas e dorme um pouquinho.

– Ta bem. Obrigada.

Layse deitou sorrindo feliz. Adormeceu em seguida esgotada.

À noite, quando elas sentaram para jantar, Valentina falou para o pai na frente de Layse.

– Pai? O senhor podia dar comida para os pais da Layse? Tem dia que o pai dela fica sem comer para ela ter o que comer.

– Nooooooooooooo! Num podia contar, Valentina!

Salomão olhou para Layse sobressaltado, perguntando:

– Isto é verdade, Layse? Fala a verdade.

– É sim senhor.

– Seus pais não me falaram nada disto. Isto não está certo. Vou servir o seu prato.

Layse ficou olhando com o olho comprido enquanto Salomão servia um prato de comida para ela. Colocou o prato a sua frente, recomendando:

– Se quiser repetir eu coloco mais. Bom apetite!

– Deus que aumente!

– Amém! Bom apetite, filha!

– Bom apetite, papai!

Valentina respondeu olhando Layse comendo com imenso prazer. Ela até fechava os olhos para saborear a comida. Aquele final de semana no sítio foi inesquecível para Layse. Ela de fato adorava Valentina. Sem contar que ter o que comer com fartura deixou-a imensamente feliz.

Continua…

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