16 nov

Tua – Duda Abelenda

não sei o momento exato em que aconteceu, nem lembro se a luz do corredor ainda estava acesa ou se a claridade vizinha, tímida, é que espiava tua silhueta nua por trás da cortina da sala. a neblina de vapor e fumaça se confundiam numa dança sincronizada, na qual já não se sabe quem obedece à coreografia e quem conduz os passos dessa valsa. eu não tenho certeza se estava mesmo sentada no chuveiro ou no chão da sala… molhada. o livro ainda estava na mesa, mas eu folheava tua pele, tuas costas e costelas, quase negras, numa tentativa cega de te ler no tato, quando teu corpo escreve o que tua boca insiste em contrariar – e eu me deixo ensurdecer, pra não pensar, pra não parar. you don’t know me… e você pinga em mim. feel so lonely… eu transbordo de você. não sei o momento exato em que aconteceu, acabei ficando desatenta enquanto te via debruçar sobre-mesa para trocar de estação. é preciso estar distraído – e eu estava. como num disco arranhado, fiquei presa em um único refrão. em algum momento não-exato, por descuido ou poesia, deixei de ter nome para ser pronome: tua. só tua, cantava bethânia.

 

10 thoughts on “Tua – Duda Abelenda

  1. Mais uma vez me pego sem reação depois de ler mais um poema seu… Mais uma vez me pego paralisada sem saber se apenas agradeço ou se em conjunto te peço pra jamais deixar de escrever poemas.
    Fico encantada, com a forma de que me prendo ao ler o que vc escreve… E tudo mais parece sumir enquanto me deslumbro fixada em meio a tantas formas de pensar, juntas em um único momento.
    Mais uma vez… Obrigada por escrever.

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