07 nov

Trégua – Duda Abelenda

enquanto você dorme e o vento embaraça o teu cabelo em tranças mal feitas pelo sopro do ar-condicionado, uma mosca decide pousar entre os teus sinais desenhados em pedra de dominó, eu a abano e penso: como gosto de você. as nuvens patinam pelo céu azul royal e os pássaros voam coreografados sem destino com vista para um mar tão cansado que se arrasta entre ondas preguiçosas para se debruçar na praia. um pai, com o protetor solar, desenha bigodes de gato no rosto da sua garotinha – com olhos tão famintos por um algodão doce quanto os de um gato por um pires de leite. examino a temperatura do sol numa tentativa inútil de o encarar de frente. olhando para cima, o calor me desafia e a luz forte me faz baixar a cabeça e perceber conchas escondidas na areia amarelada da praia, é quando paro e penso no quanto gosto de você. os automóveis se queixam da desordem humana, falam alto num coro de motores e buzinas desafinados, a rádio gagueja entre uma estação e outra. o menino do sinal, sapateando no asfalto quente, joga água no meu vidro, o limpador do para-brisa, quebrado, espirra o excesso pro carona do carro ao lado, o sinal, indeciso, troca mais uma vez de cor; eu já estou em movimento quando paro e penso no quanto gosto de você. a senhorinha na calçada tem pressa para alcançar a parada antes que o ônibus dê partida, quase tropeça em sua própria bengala; o motorista do ônibus tem pressa para chegar na garagem, quase avança o sinal deixando a senhorinha para trás; a moto que vem da rua transversal tem pressa para um destino que desconheço, e faz o motorista do ônibus frear no sinal, e faz a senhorinha subir no ônibus, e me faz parar e pensar – sem pressa – no quanto gosto de você. agora, estou aqui, já não sei das moscas, praias, automóveis, crianças ou senhorinhas; é neste instante, caída sobre teu corpo, que tudo ao redor silencia para se tornar uma multidão de nós duas, entre versos escritos e gemidos, onde só é possível ouvir e sentir, dentro de um abraço, o som do teu coração batendo forte no meu peito.

12 thoughts on “Trégua – Duda Abelenda

  1. E meus olhos já não querem mais enxergar caminhos que não te encontram. Tudo é pouco diante da infinidade de vida que nos aguarda. Pra sempre, ao teu ladinho. :*

  2. É encatandor como cada palavra escrita expressa uma emoção. Um poema com seu jeito único de transmitir sensações incríveis que me faz parar, ler, ler mais uma vez e, a cada vez que chego ao fim me deixo suspirar. Poema lindo, bem escrito e simplesmente gostoso de se ler.
    Que jamais lhe falte inspiração para continuar escrevendo poemas e encantar e apaixonar a todos que os leem, assim como eu.
    Um grande abraço.

    • Kinderllyne, que feedback mais lindo. Obrigada pelo carinho, é muito gratificante saber que nossa literatura pode proporcionar emoções tão fortes nas pessoas. Um cheiro grande!

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