29 ago

Você se parece com as personagens dos livros que lê? – Drey Damaso

 

Eu comecei a escrever aos doze anos. Obviamente, demorei um pouco para criar um enredo mais complexo, detalhado, e a entender, principalmente, que através da escrita eu poderia não apenas me reinventar, como também lançar para o mundo um universo inteiro e dicotômico entre a realidade e a ficção, nesse enlace tão único que perpassa nossa existência social. 

Nessa época eu lia muito romance. Era mais complicado conseguir outros gêneros, então eu me bastava com a coleção “água com açúcar” que minha mãe tinha.

Sempre após terminar um livro, eu passava bons minutos refletindo sobre o que tinha acabado de ler. Repassava na minha mente alguns trechos, olhava a capa, lia a sinopse de novo – pra ver se fazia sentido -, e mergulhava em ponderações mais uma vez.

Dos tantos romances que li, apenas três realmente captaram minha atenção: o primeiro era sobre uma mulher que, filha de delegado, tinha seguido carreira como investigadora e se apaixonou por um ex-vigarista – agora homem direito, rico, atraente, de carácter. Outro era sobre uma jovem que passava por um momento complicado de identidade, estava solteira, em crise na carreira e sempre em dúvida que as pessoas achariam sua irmã gêmea mais atraente e interessante do que ela. O último era sobre uma mulher que voltava para sua cidade natal e tentava prosperar à revelia da imagem negativa que todos tinham dela, pois era solteira, independente e sexualmente ativa.

No geral, todas as histórias seguiam plots semelhantes no qual as mulheres encontravam príncipe encantados. Em 100% os homens eram ricos, lindos, sarados, sedutores, cafajestes e muito experientes na cama; enquanto que em 99% as mulheres eram inocentes, virgens, românticas e completamente desligadas de qualquer outra ambição que não fosse encontrar o marido perfeito.

Os três romances que ficaram gravados em minha mente destoavam em muitos desses estigmas, mas que, de uma forma ou de outra, acabavam de maneira semelhante e, no meio do caminho, lançavam mão dos típicos clichês.

Um dia eu me irritei.

Não aguentava mais ler aquele tipo de coisa. Aquelas não eram as mulheres que eu queria me tornar. Não via semelhanças, não via motivos para querer ser como elas, para me inspirar, para espelhar minhas ações.

Resolvi escrever meu próprio romance!

Armada com uma caneta e um caderno, rascunhei o enredo que achava fazer sentido de acordo com os meus anseios. Passei meses escrevendo e escrevendo. Mas, um dia, relendo tudo aquilo, eu me senti vazia. Me senti frustrada. Tão frustrada como quando eu terminava de ler os romances de “banca de revista” da minha mãe.

E foi com choque que percebi o problema: era uma história hétero! Meu protagonista era bonito, sedutor, engraçado… Minha heroína era linda, inteligente, talentosa, destemida, mal humorada na medida certa e eles formavam o casal perfeito.

Na ânsia de escrever a “minha história” perfeita, eu tinha seguido os mesmos padrões dos livros, eu tinha reproduzido estereótipo atrás de estereótipo! Isso doeu, de verdade.

Eu tinha quinze anos, já sabia ser lésbica desde os onze, nunca tinha tido problema em entender a minha sexualidade, o meu desejo, a minha vontade por outras meninas. Mas na hora de escrever um romance o que que eu fazia? Escrevia um plot heterossexual e bastante heteronormativo.

Foi complicado me dar conta de que mesmo já contestando os valores ditos tradicionais na minha vida, mesmo já me vendo como pertencente a um grupo subvisto (mulher E lésbica) na literatura (já tão parte de mim!) eu ainda era incapaz de formular uma história que ME representasse, que saísse do padrão, que abrangesse pluralidade, outras formas de ser, de amar, de viver!

E nisso veio o choque de que eu NUNCA tinha lido uma história (de qualquer gênero) que verdadeiramente se mostrasse um exemplo do que EU queria ser e viver.

Naquela época era tudo muito escasso. Mesmo na televisão pouco se via sobre homoafetividade e homossexualidade de uma forma que não fosse limitada, marginalizada e/ou satirizada.

Apenas em 2008 eu encontrei um site que postava histórias sobre mulheres que amavam mulheres, que me traziam identificações, fosse na personalidade, na aparência ou na forma de viver; nos sonhos, nos anseios de apenas encontrar um amor e viver um romance inspirador. E não vou negar, foi verdadeiramente maravilhoso “cair” naquele mundo. Se eu pudesse, abraçaria e beijaria todas e cada uma daquelas pessoas naquele site, sussurrando um “obrigada” emocionado, seguido de um “você mudou a minha vida”.

Em 2009 eu publiquei meu primeiro romance lésbico. Ao meu redor, outras autoras, do Brasil inteiro, se propunham ao mesmo trabalho. E sempre me pego imaginando se, em algum momento, alguma delas, passou pelo o que eu passei. Se também se sentiam solitárias, amando a literatura que não as incluía, a literatura que não falava sobre elas e que, ao mesmo tempo, tanto fala sobre como as coisas são em nossa sociedade, sobre como nós, mulheres, somos vistas e o que esperam de nós. Sobre esse padrão torturante que ninguém nunca vai conseguir alcançar (e nem deve!) e sobre as mulheres que são princesas, lindas e delicadas, e nunca rainhas, donas de si mesmas.

Se eu me tornei a escritora que sou atualmente é porque, mesmo que tarde, eu encontrei uma literatura lésbica representativa, plural e mais abrangente.

Estamos longe, ainda, muito longe de fazermos justiça a todos e todas que sentem necessidade de encontrar espelhos nos livros. Espelhos nos quais possam se enxergar. A batalha é árdua. Não apenas para darmos espaço para novas criações, como também para levarmos essas obras ao público que as merece.

Em dois anos da PEL, muita coisa mudou, mas muita coisa ainda precisa mudar. E eu me sinto imensamente privilegiada de fazer parte de tudo isso, de toda essa trajetória. E a minha motivação é antiga, ainda vitalizada por aquele sentimento juvenil de alimentar a alma de quem ama literatura, de quem busca, nos livros, recantos seguros e inspirações para a vida.

Hoje eu sei que escrevo com toda a forma do meu ser. Me sinto segura em derramar cada linha, cada página, me sabendo verdadeira, mesmo que numa luta eterna de desconstruções, de empoderamento e de ressignificação perante a sociedade.

Hoje eu me sinto feliz por poder encontrar literatura mais representativa e ver que, a cada trabalho, deixamos de ser “um nicho estigmatizado” para ocuparmos um papel de direito sendo somente “literatura brasileira”.

Para tanto, precisamos de mais corações, de mais almas ao nosso lado, de mais gente levando o amor, o respeito e a pluralidade; mais gente entendendo que um livro pode sim mudar a vida de uma pessoa e que a falta dele, também.

Que sejamos, sempre, protagonistas de nossas vidas, heroínas, princesas, guerreiras, mulheres(!) que se amam, que amam outras e que leem, que escrevem, que vivem e criam o mundo de amanhã.

No Dia da Visibilidade Lésbica, eu quero enaltecer a importância de nunca mais nos sentirmos sozinhas, escanteadas, tiradas do protagonismo. Somos sujeitos de nossas histórias e a cada livro publicado, marcamos nossa trajetória com uma tinta que jamais poderá ser apagada.

 

Dia da Visibilidade Lésbica

A batalha é uma só e, para tanto, é fundamental mantermos união, respeito e trabalho com amor. A PEL agradece imensamente cada pessoa que colabora para levarmos e elevarmos uma literatura mais plural, representativa e inspiradora. Amigos que se tornaram família <3 a nossa família. A Família PEL… Falamos poucos nomes, mas pensamos em muitos. E cada um sente dentro de si o quanto faz parte de nós. Que nos tornemos visíveis! Seja PEL, seja plural. #PEL#Dia29#EsquadrãoPEL

Posted by Palavras Expressões e Letras on Tuesday, August 29, 2017

 

 

 

 

3 thoughts on “Você se parece com as personagens dos livros que lê? – Drey Damaso

  1. Muito verdadeiro, sinto que muito do descrito se traduz a minha realidade, mesmo que infelizmente ainda não me sinta toda representada, afinal, ainda temos muitos estereótipos brancos, magros, ricos e famosos dentro da literatura lésbica

    • Verdade, Luana! Infelizmente a nossa literatura ainda reflete em grande parte esses padrões. Mas acho que o primeiro passo é nos darmos conta disso, de que ainda perpetuamos essa ideologia. Mas vamos seguir em luta, sempre(!), para que mais e mais pessoa se sintam representadas, sintam identificações. Lutar pelo plural, pelo amor.

      Obrigada pelo comentário!

      Abraços e beijos! o/

  2. Lindo texto, que pode valer para tantos casos não só para a comunidade lesbica mas todos aqueles que não encontram espaço e visibilidade.
    Esse texto me lembrou um discurso de Chimamanda Ngozi Adichi, uma grande escritora e feminista nigeriana. Pessoa que admiro muito e discurso que de tempos em tempos assisto novamente para me lembrar de pensar com a minha propria cabeça e não acreditar que o mundo é somente aquilo que nos vem apresentado.
    Esse é o link desse discurso maravilhoso: https://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story?language=pt#t-103606

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