30 jun

Uma Mulher Misteriosa – cap 24

 

Carmem confessou olhando em volta novamente cuidadosa. Constatando que estavam mesmo sozinhas, aproximou-se puxando Marcela para os seus braços.

– Achei maravilhoso fazer amor com você hoje.

Beijou-a sentindo os braços de Marcela envolvendo-a. Após algum tempo, Carmem comentou:

– Você foi muito esperta conquistando a minha mãe.

– Isto nós vamos ver quando ela descobrir que sou a Marcela que ela odeia.

– Este ódio é ridículo. Quem que odeia uma pessoa que não conhece? Isto não faz sentido.

Carmem tranquilizou-a apertando a mão dela de forma carinhosa.

– Você tem razão. Acredito que vamos ficar juntas com a aprovação da sua mãe. Estou preparada para enfrentar a fúria dela. Por você eu enfrento qualquer coisa.

– Não faz ideia como estou feliz por ouvir isto. Você sabe não sabe, Marcela?

Alice entrou na sala comentando ao vê-las tão próximas.

– Oh, que maravilha! Vocês já estão se conhecendo. Hoje em dia é tudo tão rápido. O jantar já está servido, venham.

Alice lançou um olhar para Carmem, ao vê-la soltando a mão de Marcela tentando disfarçar.

Durante o jantar Alice deixou mesmo claro que fazia gosto em vê-las juntas. Carmem estava dando graças a deus pelas duas terem se conhecido e a mãe ter gostado de Marcela. Após o jantar, tomaram um licor na sala de estar. Marcela então se despediu sendo acompanhada por Alice até o carro. Assim que a porta se fechou, Laura voltou-se para Carmem comentando surpresa.

– Nossa! Essa Marcela é muito bonita!

– Então você aprecia mesmo mulheres?

– Quem não aprecia gente bonita?

– Por que você não admite que é lésbica?

– Para falar a verdade acho que dona Alice não vai reagir muito bem.

– Faça isto por você sem se importar com o que mamãe possa pensar. É uma questão de maturidade, Laura.

– Eu sei. Quanto a Marcela, eu só elogiei a beleza dela.

– Boa noite, Laura!

Carmem passou a manhã de domingo na piscina com a mãe. Alice estava radiante de felicidade. Só falava em Marcela.

À noite quando estavam jantando perguntou inquieta para Carmem.

– Por que não liga para Marcela e a convida para ir ao cinema?

– A senhora acha que devo convidar?

– Acho sim! Não pense que não te vi segurando a mão dela quando entrei na sala.

Carmem viu Laura abaixando a cabeça disfarçadamente rindo da mãe.

– Se ela quiser me ver ela que dê o primeiro passo. Deixei o meu interesse bem óbvio como a senhora viu.

– Fez muito bem.

Carmem voltou a jantar deixando o assunto de lado. Foi ao final do jantar que o telefone tocou. Alice quase pulou de alegria quando Marcela pediu para falar com Carmem. Ela atendeu na sala mesmo.

– Alô?

– Precisava ouvir sua voz querida.

– Sei. Eu também.

– Não está com saudades?

– Você sabe que estou.

– Vamos tomar um drinque? Acha que sua mãe vai pensar que estou indo depressa demais?

– Tenho certeza que não. É o que ela mais quer, não tanto quanto eu.

– Posso passar para te pegar agora?

– Pode. Estarei te esperando.

Desligou voltando-se para a mãe contando tranquila.

– Marcela me convidou para dar uma volta.

– Uma volta?

Alice se ergueu confusa.

– Volta onde?

– Uma volta num motel mamãe!

Laura comentou maldosa para provocá-la.

– Nem pense em ir para um motel se ela te convidar! Duvido que ela seja este tipo de mulher. Você é uma moça de família, não se esqueça disto.

– Tem razão. Pode deixar que vou me comportar muito bem. Vou me trocar.

– Carmem?

– Sim, mãe?

Parou se voltando para ela.

– Não faça aquelas coisas no carro. Se precisar de privacidade pode usar o seu quarto.

Carmem sorriu percebendo o olhar admirado de Laura. Olhou para ela comentando carinhosa.

– Viu Laura? Hoje em dia as mães são mais maleáveis. Talvez tenha alguém para apresentar para nós. O que acha disto?

Laura ficou muda olhando-a sem saber o que responder. Carmem subiu sem esperar pela resposta. Do alto da escada ouviu a voz da mãe quando se voltou para a irmã questionadora.

– O que Carmem quis dizer com aquilo? Por acaso está namorando? Quem é? Não vai me apresentar?

– Mãe…

– Mãe coisa nenhuma. Fale de uma vez. Este suspense não leva a nada.

– Estou namorando sim.

– Ah, faz muito bem. Quem é ele?

– Foi por isto que não falei antes com a senhora.

– Por isto o quê? Qual é o problema? Não me diga que é um homem casado. É só isto que está faltando agora.

– Não mãe, não é um homem, é uma mulher. Eu sou lésbica.

Alice abriu a boca, fechou-a novamente e sentou diante dela perguntando:

– Você também?

– É mãe, eu também.

– Você podia ter dosado a pílula. Quero dizer, eu não esperava, sabe que não. Você namorava com homens, eu recordo disto.

– Sim namorei com homens, mas percebi que estava indo por um caminho contrário à minha natureza. Não me sentia completa.

– Ah, completa! Sim, estou percebendo que é isto mesmo que deve acontecer.

– Sim mãe, a insatisfação, o vazio, o mal estar de vivenciar intimidade com quem não tem nada a ver comigo, tudo isto desapareceu. Sinto agora uma sensação de plenitude.

– Eu te entendo. Se você está realizada Laura, só posso fico feliz por você.

– Estou mesmo muito feliz mãe. Eu a amo profundamente.

– Realmente nunca imaginei uma coisa destas.

– Eu sei e pensei que a senhora não aceitaria.

– Como poderia não aceitar se aceitei a sua irmã? Seria muita injustiça da minha parte. Você sabe que eu não sou assim. Por que não me contou antes, Laura? Não precisa ter receio da sua mãe. Você e a sua irmã sempre poderão contar com o meu apoio.

– Eu sei mãe, mas contar que se é lésbica não é assim tão simples.

– A sua irmã não teve problema nenhum em me contar.

– Carmem e eu somos pessoas diferentes. Eu não me sujeitaria ao que ela se sujeitou se tornando amante de uma estranha.

– Sim, eu sei que são diferentes. Falar é fácil, mas não se esqueça de que você teve intimidade com homens pelos quais não sentiu nada. Também já foi para a cama com estranhos. Estou errada?

– Sim, é verdade.

– Então não julgue a sua irmã.

– Não a julguei, não me entenda errado. Apenas constatei que eu não faria o que ela fez.

– Só sabemos do que somos capazes quando nos vemos diante de um dilema. A sua irmã fez o que foi preciso para salvar a fábrica. O que Carmem fez não vem ao caso. Eu quero conhecer a mulher que você ama. Traga-a para jantar aqui em casa.

– Ah, tudo bem. Obrigada!

Quando o carro de Marcela parou diante da casa, Carmem entrou lançando um olhar intenso sobre ela.

– Oi, Marcela! Que bom te ver.

– Oi, Carmem. Nossa! Como você está linda.

– Estou? É só para você.

– Que honra. Podemos ir para minha casa?

– Precisamos conversar primeiro. Ainda não sei se somos tão boas em um diálogo quanto somos afinadas na cama.

– Tenho que concordar com você, eu também não sei.

Respondeu olhando-a com um sorriso.

– Só pensei que você também queria fazer amor comigo.

Fazer amor! Carmem adorou ouvi-la falando daquele jeito. Sorriu se inclinando para roçar a boca na orelha dela.

– Tem dúvidas do quanto quero fazer amor, Marcela?

– Carmem…

– Me conta, pensou muito em mim?

– Cada minuto. Meu corpo vive ardendo por você. Não sente o mesmo?

– Sou eu que estou te perguntando. Por que será que vive assim, ardendo por mim?

– Podemos falar sobre sentimentos agora?

Marcela perguntou emocionada.

– Claro, temos muito que falar dos nossos sentimentos.

– Fiquei alucinada por você desde a primeira vez em que te vi.

– No aniversário da minha mãe.

Acrescentou atenta.

– É. Você percebeu muito bem o quanto fiquei fascinada.

Respondeu parando o carro diante de um restaurante. Havia algumas mesas na calçada onde às pessoas bebiam descontraídas.

– Percebi sim, como eu fiquei e depois?

– Voltei a ver a sua foto nos jornais. Não conseguia parar de pensar em você. Até que você marcou aquela entrevista e foi à companhia.

– Quando você resolveu se aproveitar e me levar para a cama.

– É verdade! Desejava você demais. Achei que se transasse com você aquele desejo desapareceria, mas fui uma tola. No dia que regressei daquela viagem te liguei logo. Depois que ficamos juntas me dei conta que o desejo não se acalmou e nem passou. Descobri que precisava de mais tempo na sua companhia. Fui dando-me conta que estava apaixonada. Eu te queria todo o tempo, por isto disse que teria que morar comigo. Não tive coragem de te contar. Ficava pensando que iria rir de mim. Chegou a me falar que não acreditava que eu tinha sentimentos por você. Por isto não contei o quanto eu te amo.

– Não sabe o quanto sonhei em ouvir essas palavras.

– Eu não quero que me pague dívida alguma. O cheque que me deu está guardo no cofre e vou devolvê-lo para você. Eu só quero os seus beijos.

– Não quer que eu te pague? Não sei se isso é certo. Se brigarmos, sei lá, você pode acabar por jogar na minha cara.

– Não, nunca faria isso. Fale sobre este assunto com a sua mãe e deixe que ela decida. A dívida era do seu pai e talvez ela pense que é um compromisso de honra. Como você pensa.

– Farei isto.

– Quer falar dos seus sentimentos agora?

– Sim. Realmente não sabia o que você sentia por mim, mas a intensidade do seu desejo sempre me seduziu. Também demorei a entender os meus sentimentos. Até a minha mãe percebeu primeiro. O que mais posso falar? Sou completamente louca por você. Não sei quando comecei a te amar, só sei que eu te amo muito. Não quero mais ficar afastada. Preciso te ver todos os dias.

– Carmem, que felicidade! Vou poder te chamar de meu amor.

Sorriu feliz apertando a mão dela.

– Sim, vai. É o que eu mais quero. Ouvir você me chamando de meu amor quando estiver me beijando, quando adormecermos e acordarmos juntas. Adoro ver você adormecida. Isto me dá tanta paz.

– Sabe Carmem, o inexplicável segredo da felicidade está no amor. Foi o que descobri depois que você entrou na minha vida. Nesta semana refleti muito e curiosamente acabei assistindo uma entrevista com uma celebridade. Quando perguntaram se era uma pessoa feliz ficou emudecida. Pelo silêncio inicial nem necessitava ter respondido. Percebi que não era. Uma pessoa famosa, realizada, rica, que aparentemente possui tudo, mas não tem um amor e sem amor se tornou um pessoa fracassada amorosamente. Está atrás das câmeras com um sorriso constante, mas é um sorriso mascarado. Aquilo me fez refletir sobre a felicidade porque eu fiquei triste depois que você se foi. Tudo perdeu a graça, perdeu a cor, sem você nada faz mais sentido. Posso ter tudo, mas se não sou amada e por não poder te amar, me tornei uma mulher pobre. A minha alma perdeu o brilho e o encanto da minha vida se ofuscou. Sem o seu amor eu não passo de um balão murcho.

Nota da autora: Balão murcho. De onde que eu tirei isto?

– Que lindo te ouvir falando assim do seu amor por mim. A minha vida também perdeu a cor. Se os meus olhos brilhavam era por refletir todo o amor que sinto por você.

– Ah, meu amor!

Marcela abraçou-a com força unindo seus corpos emocionada.

– O que vamos fazer, Carmem? Assim é que não podemos ficar.

– Temos que ficar juntas porque não estou aguentando mais.

– Também não estou mais aguentando, meu amor.

– Apresente sua tia para minha mãe. Essa coisa de família é muito importante para ela.

– Farei isto amanhã mesmo.

– Agora me leve para qualquer lugar porque não dá mais. Tenho que te amar.

– Eu também estou louca para te amar.

Sorriu ligando o carro apressada.

Continua…

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