29 jun

“Hematomas” – Ali Dias

            Irei dançar aqui onde resido, pela Cia de Dança que faço aulas, sim, Ali, é bailarina (a gente tenta rsrs), uma coreografia estilo contemporâneo, o resultado de toda essa estripulia artística, são os hematomas que estão pelo meu corpo. Para quem acha que dançar não sofre, eis a verdade, dói, sangra, é exaustivo, mas no final a arte faz tudo valer a pena. Bem, o que vem depois quando as “manchas” são vistas por outros que não estão acostumados a ver, ou não imaginam que onde as consegui, são as perguntas.

            “Onde foi isso? Você caiu? (Essa minha namorada perguntou inúmeras vezes, até se convencer que meus joelhos iam ao chão durante metade da coreografia, e por isto estarem cor esverdeada), ou a última e melhor, “O que estava fazendo?”. Para as pessoas que me conhecem sabem que são ossos do oficio, mas para outros, é uma explicação atrás de outra, e mesmo assim boa parte olha bem assustada algumas vezes.

            Além dos hematomas externos, existem também os internos, estes não têm a ver com a dança, mas com as nossas vidas, nossas escolhas, nós mesmos. E, estes acontecimentos tem relação com esse assunto? Ali diz, tem, e como! Ontem foi o dia do nosso orgulho, um dia de pensar, falar, refletir, se afirmar, se sentir, mesmo que façamos isto todos os dias, quando saímos de casa para o trabalho, quando enfrentamos nossa família, a sociedade, o público, o mundo lá fora, ontem foi o dia em que o mundo falou a mesma língua, de celebrar o que nós somos, seres humanos que amam seres iguais a nós.

            Dia 28 não foi um dia para celebrar os hematomas que estão dentro, e em alguns casos extremos por fora, por meio da intolerância, mas para celebrar o amor, em sua

forma mais bonita, o respeito pelo outro. Eu tenho hematomas por dentro e por fora, da dança, dos meus enfrentamentos por ser quem eu sou, muitas vezes procuro externa-los, mas quantos de nós não temos esta oportunidade? Quantos de nós não temos a opção de se livrar de nossas cicatrizes? Nossos “roxos”?

            Que possamos fazer com que os hematomas que nos preencham sumam com o passar do tempo, assim como os que a dança faz comigo, é dolorido quando eu toco, ou faço novos por cima, as vezes, formam uma cor e uma aparência esdrúxula, mas eles somem, nossos hematomas são curáveis. Que nosso remédio para nossas “manchas” interiores, seja a luta diária, para que possamos ser realmente quem somos, sem medo, mesmo que dolorida por inúmeras vezes, saibamos que elas de fato desaparecerão.

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