26 jun

31 passos – Karine Gallas

Acordou naquela manhã como em todas as outras… Mas havia algo que lhe corroía por dentro, lhe tirava a calma das manhãs e embaçava o olhar do dia.

Era ela, Daniela! A que desde o primeiro olhar lhe tomou o ar, agora pesava no peito e sujava a tela do dia com sua incolor indiferença.

Ali, deitadas naquela cama que foi palco de tantos enredos, a duas, percorreu em segundos os quatro cantos do quarto. Era a conta exata de quatro anos em que, juntas, zombavam da noite com suas conversas infinitas, com seus atos indecentes e seus lúdicos planos de uma vida inteira para, em seguida, abrirem o sorriso de inúmeras manhãs misturadas em sexo, amor e despudor.

Havia naquele pedaço, milimetrado, solto no quarto, um corpo inteiramente escrito pelas mãos da outra e isso ela não sabia como apagar, não sabia por onde começar. Num espaço de segundos seus olhos abriam e fechavam, piscando freneticamente, como se quisesse, a cada um destes fechar de olhos, encerrar o espetáculo que já não tinha mais a plateia dos desejos em comum.

Neste exato momento em que nada faz sentido, nada tem a menor importância, estava ela com o corpo coberto de interrogações: onde teria se partido? Onde teria começado a se apagar o brilho do olhar? Ou deixado de se contemplar a beleza do sorriso de cada uma? Onde teria se escondido a coragem de ser mais verdadeira? Entre todas estas perguntas sobrevoava uma única lembrança: nítida, clara e profunda, talvez por ser a mais pura, por ser a primeira! Sim, a primeira vez em que os dois olhares se cruzaram em plena rua. Era carnaval e ao redor exalava um cheiro de sexo por todos os lados. Nos olhares, nas mãos que deslizavam nos corpos anônimos, nas frases ao pé do ouvido, nos sorrisos sorrateiros convidativos ao prazer. E lá, no outro lado da rua, estava ela. Parecia sóbria, uma mistura de colombina e bailarina, com movimentos leves, mas ao mesmo tempo fortes e definitivamente decididos. Tinha uma forma de mexer as mãos como se tivesse regendo uma sinfonia… E talvez estivesse mesmo… O meu olhar! Com um ar de quem sabia muito bem onde estava e o que queria, ela estava atenta aos corpos que se entregavam às delícias da orgia liberada. Então numa fração de segundos, meu olhar que espiava tudo em segredo foi surpreendido, levou um tiro, sem direito a defesa!

Por um momento, tudo parou em volta, parecia que todo o som ensurdecedor de todas as bandas silenciaram com aquele olhar. Aquilo me desmontou e fez do meu sorriso um folião desconcertado, dançando um ritmo descompassado por ter sido acertado bem no meio do olho do furacão. Desde este momento, o meu olhar se arrastava naquela direção feito um imã e ela sabia disto e alimentava cada cruzar que minha retina conseguia captar. Então fez o gesto que derrubou por terra todas as minhas armaduras. Juntou os lábios e soletrou no ar: Quero você! Imediatamente minhas pernas até então seguras de si, em todos os seus passos, tremeram! Fiquei sem jeito… Eu que sempre tive minha segurança blindada a cerca de qualquer investida, estava ameaçada por aquele olhar, pelas duas palavras que não me saiam da cabeça. Quero você!

Tomei um gole de ar, enchi os pulmões e atravessei a rua, naquele momento me parecia um caminho sem chão, meus passos incertos na direção daquele olhar, e na cabeça milhões de perguntas soltas… O que falar? E se tudo der um branco? Ela olhando cada passo meu em direção ao seu convite e eu ali petrificada por dentro. Respiração entrecortada por pequenos espasmos de um músculo acelerado dentro cá do lado esquerdo. Há tempos eu não sentia aquilo tão desconcertante, tão deliciante, tão… apaixonante! Estaria eu apaixonada sem ao menos ouvir a voz? Estaria eu toda desconectada por dentro por um olhar? Tudo rodava na velocidade da luz até encerrar os exatos 31 passos que me separavam dela para tudo se consolidar de vez. Um sorriso acolhedor me abraçou inteira seguido de um “olá pra você”, que fez tudo ao redor ser mais bonito! Eu sou Daniela. Pronto! Tudo aquilo tinha nome: Era DANIELA!

Era como se as palavras que vinham ao meu encontro se transformassem num vulcão acendendo meus instintos e ao mesmo tempo me dava a calma de um pós-gozo. Foi assim desde o primeiro momento até… Até onde mesmo? Voltavam no ar as mesmas perguntas que me deram o bom dia na cama. Onde foram guardadas as fantasias que vestimos todos estes anos?

Desejou ficar ali por horas até onde não sobrasse mais nada a ser lembrado, até onde tudo fosse apagado e não lhe restasse nenhuma sílaba sequer…

Pensou repetidamente: tudo deveria estar perdido no espaço do vazio que cresceu entre nós e que por algum descuido não tinha me dado conta. Agora todos os episódios sobrevoavam seu pensamento e não se sentiam culpados por nada. Afinal, “todo carnaval tem seu fim”.

Foto : instagram@photokarinegallas

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