07 jun

Tô gramática – Fernanda Kne

Em 2004 eu vim para o Japão pela primeira vez, tinha 15 anos e só tinha concluído até a 8a série.

Nunca fui a melhor aluna da sala, sempre gostei mais do fundão. Entrei no 1o ano do ensino médio e poucos meses depois soube que eu não terminaria meus estudos, eu só estava indo pra escola pra não ficar em casa ou na loja do meu pai. Dito isso, saibam, soltei a franga, não copiava nada, não fazia exercício nenhum, nos meus cadernos nada tinha escrito, cabular aula era meu nome e sobrenome, ia pra Diretoria dia sim dia não, e a Diretora, sei lá porque me adorava, santa Dona Rosa, fechava a porta dela à chave e acendia um cigarro pra ela e outro pra mim, já que toda hora eu estava lá por ser pega fumando escondida. Meus pais até hoje não sabem dessa parte da minha vida, já que Dona Rosa achava que eu não tinha mais jeito, ia me mudar de país e nada que ela fizesse teria o efeito esperado. 

Em 2008 fiz uma prova que o governo do Paraná aplica aqui no Japão, ENCEJA era o nome da prova, é uma sigla, mas eu não lembro mais o que significa, só sei que é algo pra terminar os estudos de adultos que não tinham concluído o ensino básico. Você vai lá faz a prova e se passar, chega na sua casa um certificado de que você concluiu o ensino médio. Isso existe aqui pra facilitar a vida dos brasileiros quando retornam ao Brasil e ajudar a se encaixar no mercado de trabalho. 

Quando voltei ao Brasil com o certificado de conclusão do ensino médio, consegui o que eu precisava, um emprego, e a vida seguiu até eu resolver entrar na faculdade. 

Entrei, e senti o quanto os anos fora da escola e o fato de ter interrompido os estudos me fizeram falta, não conseguia acompanhar os outros, não sabia coisas que para eles eram básicas e pra mim eram o fim do mundo. Achava que não ia dar conta, não sabia mais escrever direito, não sabia fazer conta, não sabia regra de 3, não sabia nada sobre a nova ortografia. Não sabia nada. 

Superada essa fase, aos trancos e barrancos e com muito esforço das amigas da faculdade (hahaha) consegui chegar ao fim desse ciclo. 

Hoje em dia, tudo que eu não sei eu jogo no Google e aprendo, assisto aulas, leio material, enfim, vou atrás. Mas tem algumas coisas que eu acho que se a gente embaça pra aprender na escola, quando a fase adulta chega é mais difícil aprender, gramática é uma delas.

Puta merda que bagulho difícil, quanta treta, só quero me fazer entender, só quero colocar meus anseios, medos, sonhos e amores pra fora. Eu tento escrever certo, eu tento não abreviar, eu tento usar vírgula do jeito certo, acento no lugar certo e essa caralhada toda.

Mas nada pode ser mais satisfatório que ver no meu inbox pessoas que eu tenho no face há mil anos, que só vi poucas vezes na vida, vir falar do que eu escrevo. 

Sério, eu espero muito de vocês, só que não! 

Vocês brotam do nada, dizem que eu escrevo bem, que adoram ler o que eu posto e etc, e eu fico feliz até esse ponto. Porque depois, no parágrafo seguinte vocês dizem que eu preciso melhorar a gramática e se colocam à disposição pra me ensinar, manooooo, eu fico feliz de novo, porque se eu tô fazendo essas budegas errado eu quero fazer certo e dá um quentinho no coração quando vocês se disponibilizam pra ensinar, eu respondo mega eufórica querendo aprender e aí o que vocês fazem??? Essas porra someeeeee e eu fico aqui putona da vida.

Eu cheguei a conclusão que vocês não querem me ensinar porra nenhuma, só querem apontar esse dedo ridículo na minha cara e falar que tô escrevendo errado. Eu vou mandar pra merda a próxima que vier apontar meus erros gramaticais.

Ui, tá revoltada? 

Tô! 

#sapataonojapao

2 thoughts on “Tô gramática – Fernanda Kne

  1. Poxa Fernanda! Amei esse seu texto. Aprendi muito . Fiquei pensando que o que vc tem escrito pode muito bem virar um livro. Daí vc me chama para a noite de autógrafos,ok? Beijos e continue nos brindando com os seus escritos.

  2. Torna eu fico encantada sempre com a forma que vc escreve pra mim ❤️ Que carinho gostoso de receber! Escrevo o que me vem na cabeça, não sei se isso ainda pode virar livro. Mas… a esperança é a última que morre, não é mesmo?!

    Obrigada por me acompanhar ❤️❤️😍😘😘

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