02 jun

Uma Mulher Misteriosa – cap. 20

Estavam na delegacia. Foram levadas para uma sala reservada. Esperaram mais meia hora até que dois guardas vieram com Ricardo. Envergonhado ele sentou na cadeira sem coragem de encarar as duas. Os policiais saíram e Alice se aproximou começando a dar tapinhas nos braços do filho.

– O que pensou que estava fazendo? Não tem dó de nós? Seu pulha!

As mãos de Alice não paravam com os tapinhas. Por um momento Carmem ficou olhando para a mãe tendo que controlar a vontade que sentiu de rir. A forma como Alice batia, e as coisas que falava para o irmão não eram para rir, mas o jeito que se expressava era de facto engraçado. A mãe tinha aquela veia dramática da qual Carmem supunha que ela nem tinha conhecimento.

– Isto é coisa de moleque! Desde quando é um? Vai, me fala como virou um molecote?

– Não fui só eu, mãe…

– Não me interessa os outros! Eles têm pais, os pais deles que se mexam! Está pensando que vai ser fácil para você? Acha que vou te deixar nesta corda bamba? Acabou! Não terá nem mais um minuto desta vida boa e não fale nada, se responder vai ouvir mais! Olha que não quero te bater porque se bater você vai ver só uma coisa!

As mãos dela acertavam agora as costas e novamente nos braços.

– Que vergonha! Eu, em uma esquadra? Que humilhação! Você me paga Ricardo! Não tem mais carro, não tem mais gatinhas, não tem mais rua, não tem mais turminha, não tem mais bebida e nem aquela coisa… Aquela coisa nojenta ouviu? Acabou tudo!

– Mãe…

Ele tentou falar tomando mais um tapa no ombro.

– Mãe nada, cala a boca! Nem tenta me dirigir a palavra! Quebrou um bar inteiro? Você ficou doido? Quer que eu te interne num hospício? Olha que eu te interno, você não me conhece seu… Folgado! Preguiçoso, egoísta, safado, irresponsável, saltimbanco, sanguessuga, volúvel! Ah, gente, que incoerência ser pego em um flagrante! Vai arrastar nosso nome para a lama! Ignaro! Oh, seu vândalo!

Alice parou voltando-se para Carmem desorientada.

– Ele não vai mais sair de casa. Vai lavar as próprias cuecas, todas as roupas no tanque e à mão! Na máquina de lavar não entra nem mais uma peça dele, nem uma meia que seja. Vou trancar a matrícula da escola. Não ganha nem mais um tostão. Chega de dinheiro…

Enquanto a mãe ia falando sobre todos os problemas que Ricardo vinha causando nos últimos meses, Carmem ouvia silenciosa e assustada. Descobriu que a mãe a poupou de todos os problemas com o irmão. Até em um pequeno furto ele tinha se metido com a turma que estava andando.

Muito tempo depois a mãe se calou afastando-se dele. Acendeu um cigarro aproximando de Carmem. Tocou seu braço explicando baixo:

– Eu te preservei o máximo que eu pude.

– Não devia ter passado por tudo sozinha. Eu poderia ter te ajudado, mãe. Que pena a senhora ter aguentado essa barra em silêncio.

– Você já tem coisas demais com o que se preocupar. E Laura coitada, anda lá envolvida com os assuntos da faculdade. Isso é uma coisa que só eu tenho que tratar, minha filha.

– Mesmo assim.

Carmem falou olhando para o irmão com um suspiro.

– Será que o advogado vai conseguir tirá-lo daqui? É o advogado de Marcela Alvarez, não é?

– É mãe, é sim.

Sorriu segurando o braço dela carinhosa.

– Eu não pedi este favor, ela o mandou porque quis.

– Menos mal.

Carmem encostou a cabeça na parede fechando os olhos, perturbada. A mãe precisava dela e teria que voltar para sua casa. Falaria com Marcela, certamente ela entenderia suas razões. No momento, era o melhor que podia fazer por sua família.

– Estou aliviada por Marcela estar nos ajudando neste momento.

Alice comentou roubando Carmem de seus pensamentos.

– O que me preocupa é o preço que isto pode te custar.

Muitos beijos certamente. Carmem pensou, lembrando-se dos poucos beijos que conseguiu dar em Marcela antes de sair correndo para a delegacia.

– Uma ajuda assim não tem preço. A senhora deveria saber disto.

– Hum, pode ser que não tenha mesmo.

Alice murmurou desconfiada.

– Aquela mulher te transformou em uma sirigaita! Não confio em nada do que ela faça!

Carmem olhou para ela chocada.

– Sirigaita? Eu? Que horror!

– Se não for pior.

Lamentou sofredora.

Para alívio de Carmem, algum tempo depois o advogado conseguiu a liberação de Ricardo após pagar a fiança.

Quando entraram em casa o irmão foi direto para o quarto de castigo. Carmem sentou na sala com a mãe ouvindo suas queixas. Neste momento, Laura entrou com os cabelos molhados. Olhou para o rosto notoriamente contrariado da mãe perguntando admirada:

– O que aconteceu, gente? Foi papai…

– Seu irmão foi preso, mas graças a Deus já está lá em cima de castigo. Não ficou entre as grades, menos mal. Deus foi muito bom nos socorrendo nessa hora difícil.

– Ah, mãe! Eu sinto muito. Ele estava andando com uma turma da pesada.

– É, agora eu sei disto, Laura.

– Pois é, mãe, mas “antes tarde do que nunca.” A senhora vai ter que ser dura com ele desta vez. Sempre fez todas as vontades dele. Olha no que deu.

Laura acrescentou indo abraçá-la carinhosa.

Depois de ouvir toda a história da mãe, Laura a levou para se deitar. Quando voltou à sala, Carmem estava servindo um drinque.

– Não sei o que vamos fazer com Ricardo.

Laura comentou se aproximando, pegando a garrafa.

– Daremos um jeito. Vou voltar para casa para ajudar mamãe.

– É mesmo? E a sua amiga? Vocês terminaram?

– Não, mas no momento mamãe precisa muito do meu apoio. Do seu também.

– Eu sei. Vou fazer tudo que eu puder para ajudar. Também vou dar mais atenção para Ricardo.

– Eu também.

– Eu não acho um drama o Ricardo fumar maconha, mas quebrar um bar, roubar? Não foi legal.

Carmem sustentou o olhar de Laura perguntando:

– Você fuma maconha?

– Não fumo não, Carmem.

– Ah, pelo jeito que falou pensei que gostava.

– Eu não uso drogas, pode ficar descansada.

Carmem continuou observando a irmã com atenção. Notou os cabelos molhados atentamente. Será que Laura também tinha se transformado numa sirigaita? Teve vontade de rir com o pensamento. Sua mãe tinha cada ideia.

– Você está muito bonita, sabia Laura?

– Não tanto quanto você.

Sorriu tocando a mão dela.

– Estava com alguém?

– É. Estava.

– Não quer me contar se o sexo é bom?

– Não tenho nada para contar.

– Você é lésbica, não é?

Laura desviou os olhos de Carmem fitando seu drinque. Ela sorriu virando o resto de uma vez. Ergueu-se beijando o rosto de Carmem afetuosamente.

– Que bom que vai voltar para nós. Seja bem vinda. Boa noite!

Ficou olhando-a subir pensativa. Por que não respondeu à pergunta? Um minuto depois pegou o telefone discando para Marcela. Seu coração disparou quando ouviu a voz dela.

– Carmem? Que bom que ligou. Já estão em casa?

– Estamos sim. Vou dormir aqui. Temos que conversar seriamente.

– Sobre o quê?

– Amanhã irei vê-la na companhia.

– Se quer assim. Carmem?

– Sim?

– Sinto sua falta.

– Que bom!

Carmem sorriu baixinho sentindo um aperto no peito.

– Boa noite, Marcela!

– Boa noite, Carmem!

Na manhã seguinte foi primeiro ao hospital. Depois seguiu para o encontro com Marcela. Estava distraída mal prestando atenção enquanto atravessava o saguão luxuoso, quando deu de cara com Roberto na porta do elevador.

– Carmem? Meu deus! Que maravilha te encontrar aqui! Não recebeu meus recados? Liguei inúmeras vezes para sua secretária.

Tinha mesmo recebido os recados. Preferiu ignorar porque não tinha nada para contar de Marcela para ninguém, muito menos para ele.

– Recebi sim, infelizmente não tenho informação nenhuma para te ajudar.

– Será possível que não possa me dar uma mãozinha?

– Tenho problemas demais na minha vida. Por que não se esquece disto?

– Esquecer?

Ele perguntou assombrado.

– Acaso ficou doida? Essa mulher é o passaporte para a fama. É impossível esquecê-la. Por que não me ajuda?

Carmem suspirou vendo as portas dos cinco elevadores fecharem pela segunda vez consecutiva.

Olhou para o relógio bastante ansiosa.

– Desculpa, tenho uma reunião agora.

– Com ela?

Estacou olhando-o já sem paciência.

– E for com ela? Por que acha que te daria alguma informação? Podemos ter estudado juntos e até ter sido colegas, por isto acredite, o que vocês jornalistas fazem com a vida de uma pessoa me dá nojo!

– Mas…

Deixou-o olhando-a boquiaberto entrando no elevador. Foi levada pelo enorme corredor pela mesma secretária.

Ela abriu a porta anunciando:

– A senhorita Santiago está aqui!

Carmem entrou na sala completamente escura. Foi direto até uma das janelas abrindo a cortina. Depois arreganhou a janela voltando-se. Marcela estava olhando-a de trás da mesa com um sorriso divertido.

– Deve ser muito sério para que precise de tanta luz.

– Que bom que percebeu. A primeira vez que entrei nesta sala estava cheia de expectativas.

– E medo.

– Sim, também senti medo, admito.

Carmem sorriu abrindo a bolsa tirando um cheque que trouxe pronto. Colocou-o sobre a mesa diante dela.

– Tem aí cinquenta por cento da dívida que tenho com você.

– A metade? Deve ter sacrificado certos projetos para juntar essa quantia. Mas diga-me, essa questão é tão primordial para você?

– Sim, é fundamental. Essa dívida é um peso enorme, Marcela. Ela é como uma barreira entre nós.

– Vai sair da minha casa, é isto?

Perguntou olhando o cheque sem tocar nele.

– Preciso voltar para casa porque a minha mãe está cheia de problemas. Não me perdoarei se algo pior acontecer. Mais que isto, o médico disse-me que os órgãos do meu pai estão começando a parar. Questionou-me até se não cogitávamos desligar os aparelhos. Ele vai morrer e pode ser hoje, amanhã, dentro de alguns dias, semanas, eu só sei que vai acontecer e não me perdoarei se não estiver lá para ampará-la.

– Você é sem sombra de dúvidas uma filha exemplar. É um modelo e eu te admiro muito por cuidar dos teus pais desta forma, por não os abandonar. O teu pai, eu sei, eu vi de perto cada retorno seu do hospital, sua tristeza, isto me comoveu muito.

– Eu comovi você? Marcela, isto nunca passou pela minha cabeça. Você praticamente nunca ligou para o seu pai. Achei que isto para você era uma fraqueza minha.

Carmem confessou olhando-a surpreendida.

– Pois é, Carmem, somos o oposto neste sentido. Você ama o seu pai profundamente. Eu? Algumas vezes tive até dúvida se continuei amando o meu depois que ele me entregou para a minha tia me criar. Eu era criança, e, acho que foi quando pensei sobre aquilo que lhe falei da minha infância. Quando ele me entregou, ou se livrou de mim passando o fardo para minha tia, ele feriu-me profundamente. Eu apenas fui ao enterro dele, não passou muito disto. Fui ao velório como um ato de contrição e caridade, porque a minha tia é muito católica. Ela veio logo para o velório, agarrou no meu braço e levou-me com ela. No fundo deve ter imaginado que eu teria fugido se pudesse. Ela não só me criou, ela me moldou para a vida. Ela me salvou no dia que me recebeu na vida dela.

– Eu sinto muito que tenha sido assim para você com o seu pai.

– Obrigada, mas já agora, isto é uma dor adormecida. A Marcela cresceu.

– Eu sei. Não quero que pense que estou louca para me afastar de você, não é isto. Apenas tenho que ir para apoiar e amparar a minha mãe.

– Isto quer dizer que não vou mais te ver?

Marcela perguntou agitada.

– Claro que não, isto não é um adeus. Só preciso deixar as coisas se acalmarem lá em casa. Minha mãe, realmente isto até fez-me rir demais sozinha, mas a verdade é que ela acha que eu sou uma sirigaita.

Dados da autora: De todas as passagens desta história, o momento mais engraçado, ao menos que eu achei, foi quando Alice chamou Carmem de sirigaita. Principalmente por causa do momento delicado em que isto aconteceu. Achei hilário!

Marcela não disse nada. Ficou olhando-a sem esboçar nenhuma reação. Carmem sorriu colocando as mãos sobre a mesa, fragilizada.

– Não me olhe assim, por favor!

– Não quero migalhas do seu tempo, te quero como antes. Não gosto de esperar, você sabe. Não sei se vou suportar este sacrifício.

– Estou vivendo um momento crítico e preciso ajudá-los. Parece que até a minha irmã tem problemas. Infelizmente ela não se abre comigo.

Marcela cruzou os braços olhando-a pensativa.

– Você por acaso…

– O que acha que é Carmem?

– Não sei. O que é?

– Duas pessoas, mas eu não sei são relações amorosas.

– Duas? Dois homens?

– Não, um homem e uma mulher. Pode ser que a sua irmã seja bissexual, mas a realidade que eu descobri é essa.

– Por que não me contou antes?

– Eu disse que estava cuidando deles. Não se lembra?

– Mas… Isto vai deixar minha mãe pior do que já está.

– Duvido que ela fique sabendo. Talvez a sua irmã possa vir a fazer uma escolha, tudo é possível.

– Meu deus!

Falou chocada.

– Por que você está tão surpresa?

– Porque Laura é tão certinha, tão comportada, ajuizada e ela é tão séria. Nunca me passou pela cabeça. Já tentei tirar algo dela, mas é discreta demais.

– Bem, qualquer um que ela escolha sua mãe vai aceitar. Quanto a mim será muito difícil porque a sua mãe me odeia.

– Vou voltar para casa e falarei com jeito sobre você.

– Vai contar da nossa intimidade?

– Não, imagina! Vou falar de outras coisas que sei que ela preza.

– Entendo.

Marcela respondeu olhando-a completamente apaixonada.

Nota da autora: Era assim que eu queria deixar Marcela, louca de amor, completamente rendida.

Continua…

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