19 maio

Uma Mulher Misteriosa – cap. 18

Marcela e Telma entraram juntas no hospital na manhã seguinte. Marcela seguiu silenciosa de braço dado com a tia pelo corredor. Sentaram na sala de espera do oftalmologista com o qual Telma tinha uma consulta marcada.

Telma suspirou comentando:

– Detesto hospitais! Isto não muda nunca. Não consigo gostar.

– Eu sei. A senhora sempre detestou. É apenas um consulta, relaxa.

Marcela respondeu sorrindo meigamente.

– Você não me parece bem. Veio de casa até o hospital silenciosa demais. O que te aconteceu?

– Nada.

– Brigou com Carmem? Aposto que brigou.

– Não foi nada.

Respondeu Marcela cruzando as pernas.

– Não seja teimosa, te conheço muito bem para saber que está com problemas.

– A senhora sabe como eu sou difícil.

– Sei sim, mas você está amando agora, tudo deveria ser diferente.

– Não consigo negar que estou completamente apaixonada por Carmem. Quando isto começou achei que poderia me divertir um pouco. Eu queria transar com ela, só transar. Estava tão louca para tê-la que não me preocupei com mais nada. Tudo foi mudando e o que eu sinto é que perdi o controle dos meus sentimentos, dos meus pensamentos, nem sei se me pertenço mais.

– Conte para ela que a ama e dê um basta nesta agonia.

– Contar? Está louca, tia? Não dá!

– Não complique mais a sua vida.

– Ela nunca vai acreditar que eu gosto dela. Que eu a amo então, não vai mesmo!

– Talvez tenha razão, você foi baixa demais. Obrigá-la a ser sua amante? Isto é coisa que se faça? É vergonhoso, de fato acho que foi uma estupidez da sua parte! Percebi quando esteve em minha casa falando sobre ela. Eu te pedi naquela altura que não se aproveitasse da situação. Você me ouviu? Não! Preferiu fazer tudo do seu jeito e olha no que deu.

– Eu sei que errei, não precisa me lembrar.

– Preciso sim, para que abra os olhos e mude essa situação de uma vez por todas!

– Por favor, tia, a mim basta a minha consciência me torturando. Sem contar ter que ouvir todas as coisas que Carmem joga na minha cara quando lembra. Quando penso que estamos ficando bem, que posso começar a falar sobre o que eu sinto, ela começa a me acusar.

– Se eu estivesse no lugar dela faria a mesma coisa! Falaria poucas e boas.

– Ah, não se preocupe quanto a isto, ela fala o que bem entende. Ontem me chamou de filha da puta.

– Hahahahaha, que bom que ela tem culhões para te colocar no seu devido lugar. Você deve ter merecido. Eu achei-a um doce de pessoa. E você ficou lá se exibindo feito um pavão em torno dela. Sou cega, mas não sou burra. Eu só espero que você não a tenha forçado na cama. Não te eduquei para agir feito uma selvagem.

Telma lamentou num tom mais baixo.

– Claro que não forcei tia. Que absurdo! Quem pensa que eu sou? Eu a amo demais!

– Ama agora e ama tanto que já não pensa com clareza. Não se deve humilhar uma mulher. Você nunca entendeu nada de mulheres. Uma mulher precisa ser conquistada lentamente. Dia após dia com flores, presentes, carinhos, cuidados, compreensão, amor, sim, com muito amor. Falei tantas vezes para você e parece que não assimilou nada do que te ensinei. Foi nisto que deu te aconselhar a transar com aquela ripe maluca que pensei que fosse minha amiga.

– Aquilo foi apenas uma experiência da adolescência, tia!

– Parece ter sido muito negativa para você. Foi desastroso, isto sim! Agiu feito uma irracional com Carmem. Por Deus, obrigá-la a morar na sua casa? Você foi longe demais!

– Eu a queria de uma forma que não pensei em mais nada. Queria dormir com ela para tê-la cada vez mais próxima. Desde a primeira vez que a vi que não consigo pensar em outra coisa. Quando a vi diante de mim implorando por ajuda não me contive.

– Deu o bote! Posso até imaginar a cena. Tem que começar a ser amiga dela. Precisa ir acertando as coisas para não destruir o que lhes restou.

Telma aconselhou sorrindo com demasiada paciência.

– “A medida do amor é amar sem medida.”

– Quando a senhora fala assim parece tudo tão fácil.

– Difícil é para quem não ama. Pior é para quem não tem alguém para amar. Quem ama deve apenas amar. É o que você devia ter feito desde o início.

– Mas ainda nem nos conhecíamos.

– Seus olhos já a conheciam.

– Conheciam sim, admito. Mas a senhora precisa entender que apesar de tudo, Carmem gosta de transar comigo, eu sei disto, e até acho que ela…

– Marcela, não seja ridícula e pare de se achar! Todo mundo gosta de transar! Carmem é jovem, é saudável, portanto, é mais do que normal que aprecie o sexo. Não se sinta tão gostosona. Uma mulher precisa ser amada e não usada, acorde! Seja digna dos seus sentimentos e pare de esconder o seu amor. Deixe que ela conheça a verdadeira Marcela. Trate disto rápido antes que ela vá embora. Faça com que Carmem, não só goste de fazer amor com você, ela tem que sentir que fazer amor com você é imprescindível. Tem que se sentir segura e amada. Torne-se a razão da vida dela, seja digna! Pacifique-a, não a desintegre.

– Eu sei que tenho que agir diferente e vou agir.

– Exato! Pare de tratá-la como sua amante. Trate-a como o seu amor. Você tem que encantá-la. Faça com que ela queira voltar quando partir.

– Se ela me deixar vai quebrar o meu coração em milhões de pedaços…

– Este mundo está cheio de corações aos pedaços e estão todos seguindo com as suas vidas. Milhões de pessoas carregam culpas pelas besteiras que praticaram. Sabe por quê? Porque o ser humano tem graves defeitos, como o orgulho e a falta de humildade. Não pense no pior, mas se prepare, Carmem irá embora, isto é mais do que certo. Só faça com que ela leve você dentro dela. Se assim for, nada estará perdido. Tenha em conta, que a pessoa que parte vazia, nunca volta.

– A senhora tem toda razão. Vou tratar de me redimir com ela. Não sei ao certo se ela me odeia, mas se odiar…

– Eu não acredito que ela te odeie, muito embora seja o que você merecia; ser odiada por tudo que impôs a ela. Não sinta pelo seu comportamento vergonho, não vai adiantar de nada sentir-se a pior das criaturas terrenas. Todo mundo faz merda, então não fraqueje agora! Comece a consertar os erros. Eu amo você, mas não aprovo os seus atos.

– Eu sabia que não aprovaria. Por isto mesmo que não contei para a senhora que a obriguei a mudar-se para a minha casa.

– Ainda assim eu fiquei sabendo. O que passou já não tem volta. Trate de viver de forma que nunca mais venha a ser chamada de filha da puta.

– Claro. Eu vou fazer isto.

– Custei muito a decidir vir definitivamente para o Brasil, e você sabe o quanto ela sempre foi um doce não me fazendo cobranças, evitando até impor obstáculos às minhas vontades. Tive que pesar muitas coisas porque amo demais aquela casa, mas a casa é um bem material. Também amo muito a Itália, que também é apenas um país ao qual posso voltar sempre que desejar por uma temporada. Já o amor que sinto por ela, este não podia esperar por muito mais tempo. Foi por amor que decidi em favor dela. Para agradá-la e para viver o nosso amor. No amor, Marcela, temos que valorizar os sentimentos. O resto, não deve nos manobrar.

A porta diante delas abriu-se naquele instante. O médico apareceu dando um largo sorriso.

– Ora, mas olha só não é a mais sexy das minhas pacientes! Que prazer revê-la, Telma!

– Olá, doutor! É um prazer revê-lo com essa alegria contagiante de sempre.

– Como vai, Marcela?

– Bem, obrigada, doutor!

– Por favor, vamos entrando no meu consultório.

– Vai entrar comigo, Marcela?

– Não, tia. Vou fumar lá no pátio enquanto aguardo.

– Está bem.

A tia foi ao encontro do médico. Marcela suspirou sentindo-se horrível. Pegou o elevador descendo até o pátio do hospital. Saiu ali respirando o ar puro. Deu alguns passos parando ao ouvir soluços. Voltou-se olhando para o banco mais à sua frente. Uma mulher mexia na bolsa procurando alguma coisa sentada de costas. Estava muito nervosa. Sentiu pena dela se aproximando. Alice ergueu a cabeça batendo os olhos nela. Marcela reconheceu-a na hora. Tinha fotos de toda a família de Carmem em casa. Devia ter imaginado, afinal, era o hospital onde o pai de Carmem estava internado.

Alice Santiago agora a fitava de maneira angustiada. Parecia estar totalmente arrasada.

– Precisa de ajuda? Posso fazer alguma coisa pela senhora?

– Você tem um cigarro para me dar? Os meus acabaram, nem sei se é recomendável fumar aqui, mas estou a ponto de explodir. Espero que não chamem a polícia para mim por fumar.

Notas da autora: Rsrsrsrsrsrsrsrs. É só o que falta acontecer neste mundo.

Alice justificou sufocando o choro.

– Tenho sim.

Respondeu Marcela, prontamente pegando um cigarro passando para ela. Pegou o isqueiro acendendo-o. Notou como as mãos dela tremiam.

– Quer um pouco de água? Talvez a ajude a se acalmar um pouco. A senhora não me parece nada bem.

– Não estou mesmo, mas não quero água, obrigada. Só a chupeta do capeta já está de bom tamanho.

Alice respondeu depois de tragar longamente.

Marcela a olhou perguntando admirada:

– Chupeta do capeta?

– Pois é, cigarro é coisa do capeta segundo alguns! É o que dizem em algumas igrejas para as pessoas pararem de fumar.

– Ah, entendi!

Em seguida Alice olhou para Marcela comentando desolada.

– Você certamente não tem um marido em coma e muito menos uma filha nas mãos de uma louca que a obriga a ser sua amante.

Após o desabafo Alice pareceu se arrepender. Abaixou os olhos fugindo dos de Marcela que estava em pé, completamente muda sem saber o que responder.

– Eu não devia ter dito nada disto. Sinto muito, não é problema seu.

Justificou tristemente.

Marcela sentou ao lado dela comentando para tranquilizá-la.

– Não tem problema. Parece que às vezes é mais fácil desabafar com um estranho. Deve ser a única forma de guardar um segredo.

Alice ergueu a cabeça fumando silenciosamente por alguns instantes.

Então voltou a falar amarga.

– Eu tenho algumas amigas e quando penso em desabafar com alguma delas, percebo que é uma ideia absurda. Como poderia explicar que aceito a orientação sexual da minha filha? Eu sequer conseguiria contar que ela é lésbica, é tão difícil relevar uma coisa destas.

– Acho que não seria fácil explicar, concordo com a senhora.

Comentou amigável.

– Pois não seria mesmo fácil. Pior seria explicar que não a aceito com a mulher que está agora.

– Pareceria estranho de fato.

– Falam coisas horríveis daquela mulher. Minha filha nem consegue mais me olhar nos olhos. Ela não se queixa, sabe? Parece que a mulher a pegou pelo sexo.

– Será?

– Somos mulheres e sabemos o quanto o sexo tem mesmo uma importância vital. Não entendo como é isto entre duas mulheres, mas eu gostaria de entender até mesmo para compreender melhor a minha filha. Só sei que parece que as mulheres se reconhecem. Ela tentou me explicar como se sente na intimidade com uma mulher. Não percebi muito bem, mas não lhe contei, não quis que pensasse que sou burra.

– Talvez ela não pensasse que a senhora é burra, se ela a ama, não pensaria mesmo.

– Posso ser burra sim por não entender o que ela viu naquela mulher. Não sei o que elas fazem, ela não me fala das intimidades, mas eu penso muito sobre este assunto. Quero dizer…

Alice calou-se sorrindo sem jeito.

– Quero dizer que talvez as mulheres se completem na cama. Eu penso que seja assim. O que você acha? Acredita que é assim?

– Acho que tem toda razão, deve ser isto mesmo, elas devem se completar.

Marcela falou erguendo os ombros.

– O mundo mudou muito, mas eu sei que muitos pais não aceitam a orientação sexual dos filhos. Criei os meus e agora que cresceram nada tem acontecido como eu sonhei. Meu filho partiu para as drogas, essa filha que estou te falando é lésbica, e a outra, bem, talvez seja uma surpresa. Só o tempo dirá.

– A droga é muito triste.

Marcela disse baixo.

– Claro que é! Encontrei maconha na mochila dele, acredita? Enchi lhe a cara de tapas e não adiantou de nada. Não tive coragem de contar para a minha filha. Quando ele bateu o carro ela ficou muito assustada. Decepcionada também, é lógico, também eu fiquei. Só estou tentando poupá-la. Ela disse que não daria outro carro para ele e simplesmente mandou entregar um carro lá em casa. Não consigo entendê-la mais. Ela está de cabeça virada. Não é mais a mesma e eu posso até tê-la perdido.

– Compreendo o quanto a sua situação é complicada, mas não acredito que tenha perdido a sua filha.

– Preciso afastá-la daquela mulher porque sinto que ela é perigosa. Deve ser uma depravada, um monstro, e é lógico que ela não me conta para não me atormentar ainda mais. Esconde tudo de mim para que eu não sofra, mas sofro muito mais assim. Porque o silêncio me mata mais a cada dia. Meus filhos, se eles sonhassem que eu estou disposta a compreender, que sou capaz de apoiá-los, porque eu sou capaz de entender se confiarem em mim, sabe como é?

– Sei sim.

– Posso ser uma mãe amiga. Eu aceitei a orientação sexual da minha filha, só não a aceito com aquela mulher porque sei que está se aproveitando dela! Se eu não visse o quanto sofre, mas eu vejo. Olho para ela e percebo o quanto se tortura em silêncio.

– Deve ser difícil o que está passando sem poder…

– Não, você não faz nem ideia. Aquela mulher transformou a minha filha em numa puta!

Marcela sentiu um aperto no peito ao ouvir aquilo.

– A senhora não deveria falar assim, não da sua filha. Se ela fosse uma puta realmente iria amá-la menos?

– Oh! Eu não consigo nem pensar sobre isto.

– Mas a amaria menos? Pense para a senhora ver que as coisas não são bem assim.

Telma pensou por alguns segundos respondendo resignada:

– Não, eu a amaria da mesma forma. Amaria sim, estou certa disto.

Telma respondeu olhando para Marcela naquele momento. Achou-a lindíssima. Por que Carmem não conhecia uma mulher como ela? Parecia ser uma boa pessoa. Quem sentaria em um banco no jardim de um hospital para ouvir problemas de uma mulher desconhecida? Só alguém de bom coração, sim, não teve dúvidas do fato.

Sorriu perguntando curiosa para Marcela.

– Tem alguém seu internado aqui neste hospital?

– Não tenho não. Só vim trazer minha tia para uma consulta.

– Ela está doente?

– Ela é cega. É só mais um exame de rotina que ela faz anualmente.

– Oh! Sinto muito! Até me esqueci de que todos têm problemas.

– Tem razão. O seu marido foi desenganado?

– Sabe Deus se o que estes médicos falam é real. Já não sei o que pensar, mas e você? Mora aqui na cidade? É casada?

– Moro sim e não sou casada.

– Talvez pudéssemos tomar um chá ou um drinque qualquer dia. Às vezes me sinto sufocada. Você me ajudou ouvindo-me com tanta paciência. Pode me dar o número do seu telefone? Se não for abuso, é claro!

– Perfeitamente. Não é abuso nenhum.

Marcela sorriu abrindo a bolsa. Pegou uma caneta anotando o número para ela.

– Aqui está! Ligue-me quando precisar. Agora preciso ir. Gostei da nossa conversa.

– Eu também. Obrigada por me ouvir. Foi muita gentileza da sua parte.

– Não custou nada. Até logo!

– Até logo!

Marcela sorriu entrando no hospital com o seu andar elegante.

Alice ficou olhando-a entrar. Uma mulher gentil, meiga, compreensiva e ainda por cima bonita? Aquilo era um acontecimento inédito. Não viu um único defeito nela. Que porte, que elegância! Certamente Carmem ficaria impressionada se a conhecesse. Falaria dela para a filha naquela noite. Daria um jeito de apresentá-las o quanto antes ou não se chamava Alice Santiago!

                  Laura Santiago, a irmã de Carmem estava deixando a faculdade quando o professor Luis parou diante dela impedindo a sua passagem.

– Por que você não atendeu as minhas ligações ontem?

– Porque eu te falei que acabou tudo entre nós.

– Eu sei que falou que acabou só não me explicou o motivo!

– Mas eu expliquei que não quero mais ficar com você. Não tenho culpa se não aceitou as minhas justificativas.

– Por causa dela! Você a escolheu, não foi? Trocou-me por ela!

– Ai Luis, e se foi assim?

– Agora ela passou a ser melhor do que eu?

– Não leve para este lado…

– Para que lado eu devo levar? Encarei numa boa o fato de você transar comigo e com ela, mas nem imaginei que ela seria a sua preferida.

– Nunca pensei que faria essa escolha, mas foi o que rolou. Eu quero ficar só com ela, aconteceu, não imaginei que ocorreria assim.

– Foi ela que te pediu para escolher?

– Não, ela nunca pediu nada, mas se quer mesmo saber, eu adoraria que ela tivesse me pedido.

– Você está sendo tão fria comigo, tão…

– Pois é Luis, eu expliquei tudo da forma mais amigável e carinhosa possível ontem, você não entendeu e nem parou de me ligar a noite toda, agora já sabe a verdade. Eu me apaixonei, lamento que esteja sendo desta forma. Não queria te fazer sofrer, mas pensa só para você ver, eu vinha tentando conversar faz semanas e você não me escutava. Eu disse que não sentia mais atração. Falei que o meu desejo acabou. Fiz a minha parte, mas você preferiu se enganar, lamento muito.

– Mas eu amo você!

– Mas eu não te amo. É ela que eu amo, é difícil para mim, desculpa.

– Não podemos ser amigos?

– Este tipo de amizade não vai rolar com a gente. E eu não vou fazer isto com ela.

– Laura, por favor, não falar com você só vai me deixar ainda pior.

– Faço ideia, mas eu sinto que será melhor assim. Procure se cuidar. Tchau, Luis!

Continua…

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