17 maio

A dor de usar um banheiro público – Fernand Kne

Faz alguns anos que a minha rotina é a mesma, toda vez que vou usar o banheiro público eu tiro a boina, solto o cabelo e arrumo ele pra ficar dentro do padrão ditado como feminino pela sociedade.

Ahhh …. Mas você tem que ser você mesma, vai do jeito que você quiser e etc, vocês dizem. 

Só que a maioria não faz ideia do quanto ir ao banheiro pode ser uma questão violenta. Machuca por dentro, corrói a auto estima, faz nascer traumas pra uma vida inteira. 

Na faculdade, eu saia do banheiro e as meninas que estavam no espelho me viam pelo reflexo e viravam pra me encarar, algumas vezes gritavam de susto, outras deixavam coisas caírem no chão. Depois de ficar mal com essas vezes, adotei o banheiro de deficientes e ali pude ser livre. Não lembro de ninguém que precisasse do banheiro de deficientes no meu horário, então ele era todo meu. E isso era um alívio gigante. O pessoal da limpeza entendia sem entender e quando estava trancado eu ia até eles e sem me questionar em nada eles abriam e deixavam aberto pra mim, ainda faziam aquelas caras de solidariedade. 

Um dia voltando da Bahia, no banheiro do aeroporto de Brasília, meu outro vôo demoraria 3 horas, esperei o banheiro ficar vazio, porque muita gente que desceu do avião foi direto pro banheiro. Assim que a fila acabou e o banheiro esvaziou eu entrei, fui direto pra cabine e no meio do meu xixi a Senhora da limpeza bateu na porta: Moço, moço você está no banheiro errado. 

Na hora o xixi quase travou, mas xixi não trava, só a nossa mente que dá uma bugada. 

Sai, olhei pra ela, não vi aqueles olhares ruins, só vi uma Senhora tentando fazer seu trabalho, abri um sorriso e disse que eu era mulher e estava no banheiro certo. Ainda me lembro que comentei  que de cabelo solto ela foi a única até então que tinha me “barrado” no banheiro. Ela ficou visivelmente envergonhada, me pediu muitas desculpas, disse que minha bermuda e minha camiseta eram largos demais e por isso me confundiu.

Certa vez indo pro curso de mediunidade, no shopping Ibirapuera, entrei no corredor que dava acesso aos banheiros, era um longo corredor e a Senhora da limpeza ao me ver de longe começou a gritar pra eu voltar, que o banheiro masculino era do outro lado. Continuei andando e ela continuo gritando, cheguei na sua frente e disse que estava no banheiro certo e ela me pediu desculpas de qualquer jeito, disse que o problema era minha falta de peito. Ao entrar, banheiro cheio, todas me olharam e eu acompanhada da namorada na época, fiz o que fui fazer e sai de lá o mais rápido possível. 

Acho que a lembrança mais dolorida foi no banheiro do cursinho, era um dia de domingo, a Senhora da limpeza era outra, não era a mesma do dia de semana, porque essa sempre sorria pra mim e ainda perguntava se eu estava bem. Mas naquele domingo não teve fala, eu já estava lavando a mão, olhei no espelho pra cumprimentar quem quer que fosse que tinha entrado, mas quando meu olhar cruzou com o dela foi como uma faca me cortando a Alma. Eu vi um nojo, uma repugnância, uma coisa tão ruim naquele olhar, me deu crise de choro por dias a lembrança dela. 

Eu tô contando esses casos (embora tenha tido muitos outros) porque queria que vocês soubessem que a liberdade que vocês na sua maioria possuem pra usar um banheiro público, não é a mesma que a minha. Toda vez que preciso ir ao banheiro tenho que pensar no ambiente que eu tô, se tem alguém pra eu pedir pra ir comigo, se eu consigo segurar até poder usar um banheiro mais tranquilo, e agora, aqui no Japão, com o agravante do idioma, honestamente eu não sei como vou reagir se alguém me disser que estou no banheiro errado. 

Eu sou uma mulher que não performa feminilidade e por mais que eu goste de ser mulher, eu não me encaixo nos padrões de mulher que são aceitos pela sociedade. E isso traz carga emocional, estresse e tristeza.

Continuarei sendo o que eu quiser ser e enfrentarei o que eu conseguir enfrentar, porque a liberdade de ser quem eu sou está dentro de mim, muito embora vocês que estão do lado de fora, não saibam o preço que pessoas como eu pagam pra ser simplesmente quem são. Pra vocês é gratuito, pra gente custa lágrimas e Rivotril. 

Acréscimo pra aproveitar o tema, porque sou dessas, hahaha! 

De uns tempos pra cá eu venho pensando em raspar a cabeça, porque eu queria ver o cabelo crescendo, queria ver cada etapa da cabeça sendo preenchida novamente e eu acho isso muito legal, afinal de contas, desde que eu nasci eu não sei o que é isso, rs! 

Mas pensem comigo, o cabelo é a única munição que eu tenho pra facilitar a minha vida do ponto de vista social, e minimamente me encaixar nesse padrão feminino, porque mesmo que eu não me importe com isso, as situações geradas no meu dia a dia me machucam.

Eu não posso raspar a cabeça, já pensando no medo das situações que podem surgir. Posso ainda assim afirmar que sou livre numa sociedade que dita regras sobre meu corpo e define se eu sou ou não mulher por causa do cabelo ou pela maneira que me visto?!

#sapataonojapao

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